Meu amigo João do Vale, o genial autor de Carcará

 

Ele tinha tudo para ser marginalizado na sociedade elitista brasileira: nasceu no Nordeste, era negro e semianalfabeto. Mas, dotado de inteligência própria dos gênios, fazia música de ouvido desde menino, para o bumba-meu-boi em Pedreiras, sua cidade natal, no Maranhão, e conseguiu gravar com o sanfoneiro Luiz Gonzaga. Chegou ao Rio de Janeiro como ajudante de caminhão, em 1950. Descoberto por Zé Keti, cantou no Zicartola, o restaurante musical que Cartola manteve no centro da cidade, de 1963 a 1965.

Logo após o golpe militar de março de 1964, João do Vale foi convidado para participar, ao lado da cantora Nara Leão, do show Opinião, apresentado no Teatro de Arena, em Copacabana, como ato de protesto contra a ditadura. Nara adoeceu e foi substituída por Maria Bethânia, uma jovem cantora baiana, então com 18 anos e desconhecida.

Mas a interpretação vigorosa que ela apresentou de Carcará, letra e música de João do Vale, consagrou imediatamente a intérprete e o autor. Foi por essa época que me aproximei do compositor maranhense, quando o entrevistei para a revista Manchete, e ficamos amigos.

Na verdade, a ditadura militar, que duraria nada menos de 21 anos, não esperava uma oposição tão acirrada de um setor cultural como o teatro. E só reagiria de fato com o Ato Institucional nº 5, editado pelo general-ditador Costa e Silva, a 13 de dezembro de 1968, fechando Câmara e Senado Federal, cassando mandatos e impondo o regime de terror, com prisões, torturas e mortes impunes.

Apesar de figurar na lista negra da ditadura, João do Vale não chegou a ser preso. Sem ter ganhado o dinheiro dos direitos autorais de suas inúmeras músicas, não conseguiu mudar do barraco que construiu para ele e sua mulher, dona Domingas, num bairro pobre de Nova Iguaçu. Em 1986, sofreu um derrame. Voltou para Pedreiras numa cadeira de rodas. No dia 6 de dezembro de 1996, faleceu num hospital de São Luiz, esquecido da mídia.

Como toda regra tem exceção, para mim, João do Vale não morreu: ele continua vivo na saudade de nosso último encontro num resort, em São Luiz, onde ele foi fazer um show e prosseguiu cantando numa mesa do bar do hotel, até a madrugada, para um único ouvinte, eu, com a sua rica voz de barítono: 

“Carcará pega, mata e come. Carcará num vai morrer de fome!”

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