Matança no Guará

Casos de envenenamento de animais domésticos se multiplicam na cidade. Donos não denunciam desestimulados pela falta de aparato legal

 O número de atendimentos de animais vítimas de envenenamento no Guará cresce anualmente. No primeiro semestre deste ano foram registrados pelo menos 34 atendimentos em clínicas da cidade, contra 23 do ano passado, o que representa um crescimento de 47%. A veterinária Mariane Rocha alerta que as principais vítimas são cães e gatos. “Infelizmente são ocorrências comuns nas clínicas. Mas dificilmente identificamos os culpados”, lamenta.

Segundo Mariane Rocha, o veneno geralmente é embutido em petiscos como carne, chocolate ou até leite e pode ser despejado na rua ou jogado dentro de residências. O mais usado é o Temik (chumbinho), que, apesar de ter a venda proibida em território nacional, é encontrado com facilidade nas agropecuárias do DF.

A veterinária informa que é possível identificar o tipo de raticida por conta do tempo de ação. “Um raticida legalizado demora até cinco dias para levar o animal a óbito. Não posso afirmar que todos os casos que atendemos são intencionais. Porém a maior ocorrência é justamente de venenos ilegais, que nos dão menos de duas horas para prestar socorro”, afirma.

 

Perder um amigo

O comerciante Carlos Eduardo conta que algo semelhante aconteceu com seu gato Ralf. “Moro em casa e meu gato costumava passear sozinho pelas redondezas. Ano passado, pouco depois do passeio, reparei que ele salivava bastante, tremia e estava indisposto. Dei entrada no veterinário mais próximo, e ele me alertou sobre a possibilidade de intoxicação. Para meu alívio, após a internação ele se recuperou, mas passei a prendê-lo em casa, com medo de que o fato se repita”.

No entanto, nem sempre a situação termina bem. A empresária Carla dos Santos tinha uma cadela maltês que ficava na varanda de casa. Por conta da idade, estava cega e latia para estranhos. Carla acredita que o barulho possa ter motivado a ação criminosa de algum vizinho.

“Quando cheguei em casa, Belinha tinha vomitado, estava quase imóvel e com respiração lenta. Levei-a para a clínica veterinária, e mesmo após a lavagem estomacal ela não resistiu. É muito doloroso perder um animal de estimação de maneira tão covarde. Tentei tomar medidas judiciais, mas não consegui provas suficientes para levar o processo adiante”.

 

Fique alerta

Em Ceilândia, mais de 40 gatos foram envenenados ano passado. Em abril, houve a mesma ocorrência com mais de cinco cães em uma única rua de Brazlândia. A melhor maneira de garantir a segurança do bicho de estimação é mantê-lo dentro da propriedade.

Os passeios devem ser feitos na companhia do proprietário, com atenção para que não comam nada estranho na rua durante o trajeto. Quanto aos gatos, é importante mantê-los em ambientes com tela, para evitar fugas.

Cães que latem muito são as principais vítimas de vizinhos que se sentem incomodados, e usam esse pretexto para assassiná-los. É importante analisar o motivo da insatisfação do animal para que o comportamento seja amenizado.

 

A ilegalidade

O advogado Antônio Reis alerta que casos comprovados de envenenamento criminoso devem ser denunciados às autoridades policiais. “Reunir provas contra o responsável pode ser difícil, mas é importante. Além do laudo veterinário e das testemunhas, todo registro conta para identificar o culpado”.

O artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais é claro: “praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar qualquer espécie animal é crime, com pena de multa e detenção de três meses a um ano. A reclusão pode ser estendida se o animal vier a falecer”.

Abandono de animais também é crime previsto na lei. As zoonoses recolhem e recebem animais vítimas de envenenamento. Se houver chance de recuperação, o animal é encaminhado para tratamento veterinário. Em caso de sofrimento, é realizada a eutanásia.

 

Saiba +

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é a responsável por receber e dar seguimento às queixas de venda de venenos ilegais, e pode ser contatada  anonimamente pelo telefone 156. Denúncias de envenenamento podem ser feitas à Polícia Civil, pelo telefone 197. Toda pessoa que seja testemunha de atentados contra animais pode e deve comparecer à delegacia mais próxima e lavrar um Termo Circunstanciado (Boletim de Ocorrência), citando o artigo 32 da Lei Federal de Crimes Ambientais 9.605/98.

 

 

Por Nathália Paccelly

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