Lembrando Josemir Barbosa

Este testemunho foi ratificado em cinco noites seguidas naquele sensacional hotel à beira da praia de Itapoã (imortalizada por Dorival Caymmi), que duplica o valor de suas diárias com o acréscimo do adjetivo “resort”, o que significa desfrutar em férias de fim de ano de um pedacinho da beleza do paraíso terrestre. Claro que, como jornalista aposentado pelo INSS, eu não teria acesso a tal maravilha, não fosse o milagre que minha mulher consegue, através da Internet, pesquisando tarifas hoteleiras promocionais diante de um computador, às vezes madrugadas a dentro.

Mas, voltemos ao tema inicial: o ambiente era lindo, com o hotel lotado de gente exalando boniteza (por que todo rico pensa que é bonito?). Durante as manhãs e tardes ensolaradas, esbeltos rapazes enfeitam o cenário exibindo tangas coloridas, confrontando sex-appeal com minúsculos biquínis de moças de pele dourada. Em segundo plano, garçons e garçonetes trajadas de “baianas” se movimentam empunhando bandejas, a fim de atender pedidos de hóspedes esparramados nos chaises longues em volta da enorme piscina, com “sucessos” musicais em ritmos alucinantes explodindo nos tímpanos dos circunstantes.

Para a clientela de sons mais suaves, há um programa depois do jantar no espaçoso salão do piano-bar, onde um casal de cantores argentinos e o crooner local chamado Roberto se revezam ao som de um violão. Emociono-me pela milésima vez ao ouvir “Garota de Ipanema” “Eu sei que vou te amar”,de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, canções que conquistaram plateias do mundo inteiro.

E eis a decepcionante surpresa: em cinco noites consecutivas, o salão permaneceu literalmente vazio, com exceção das presenças de minha mulher Lêda, de minhas netinhas Maria Luisa, 4; Bárbara, 7 (fã de MPB, tal qual seu pai Cláudio, meu filho) e deste desafinado, porém refinado coração apaixonado por música.

Constatando a decepcionante realidade, lembrei do Josemir Barbosa, o nosso Frank Sinatra. E só então compreendi porque ele continua esquecido pela mídia em Brasília, não obstante ser ainda o maior seresteiro de um país que está perdendo (ou já perdeu) sua identidade cultural. E o verso de Vinicius me veio à cabeça: “O samba é a tristeza que balança!”            

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