Leila do Vôlei prepara cortada na corrupção

Leila do Vôlei reitera que entrou na política pra valer.  Foto: Thiago Oliveira

Leila Barros, 46 anos, já foi a musa do voleibol brasileiro. Sua beleza cativava o público masculino e lhe assegurou uma legião de fãs Brasil afora. Com seu 1,79m, a menina nascida em Taguatinga tinha na cortada de esquerda o golpe mais temido pelas adversárias. Conquistou duas medalhas olímpicas e diversos outros títulos nas quadras e na areia.

Após encerrar a carreira, passou a trabalhar como gestora do esporte. Candidatou-se a deputada distrital em 2014 e ficou como suplente. Mas foi convidada pelo governador Rodrigo Rollemberg (PSB) a assumir a Secretaria de Esportes, onde ficou até meados deste ano.

Desincompatibilizou-se do cargo para concorrer às eleições de 7 de outubro e vai disputar uma vaga no Senado com o nome de Leila do Vôlei. Nesta entrevista ao Brasília Capital ela descarta estar sendo usada pelo chefe do Executivo como para-raio para os ataques de que ele é alvo. Reitera que entrou na política pra valer, disposta a combater privilégios e a corrupção com a mesma garra com que subia na rede para atacar. E trabalhar incansavelmente para a melhoria do esporte e da educação na Capital do País.

“Ainda é muito precoce achar que tenho uma vaga garantida” FOTO: Thiago Oliveira

 

Nos treinamentos da corrida eleitoral você já aparece na segunda colocação. Dá para beliscar pelo menos a medalha de prata no dia 7 de outubro? – Aprendi no esporte que o jogo é jogado. Ainda é muito precoce achar que tenho uma vaga garantida. Muito pelo contrário. Minha vida sempre foi pautada com muita luta. Nessa disputa pelo Senado nós temos candidatos com mais experiência, com maior bagagem política. Mas nós vivemos hoje na política a necessidade de termos novos quadros, novos nomes, sangue novo, novas propostas. É uma oportunidade que eu encaro com muita responsabilidade, seguindo passo a passo. Ainda estamos no início.

A campanha eleitoral é uma corrida de obstáculos. Quem é o obstáculo na sua raia? – Os meus adversários. Todos são pessoas pelas quais tenho muito respeito. Alguns são adversários hoje, mas são pessoas com quem tive a oportunidade de conviver no governo, de conhecer, de estar em algum momento junto. São pessoas por quem tenho muito respeito. É uma disputa. E temos que ter essa preocupação, porque na política tem a questão da desconstrução. As pessoas não estão ali para um debate, para apresentar propostas, abrir um diálogo. Estão para desconstruir um ao outro.

 

Você tem sido alvo dessa desconstrução? – Ainda não. Mas, a partir do momento que você inicia uma caminhada e se destaca, certamente as pessoas vão tentar fazer isso. Mas eu acredito muito na minha intenção. No pouco tempo que eu tive de trabalho, acho que o Brasil e Brasília precisam de novos políticos, uma nova geração.

 

Tem a sensação de ser alvo de fogo amigo? – Às vezes sim. Faz parte do contexto. Isso não é de agora. Vem desde o início da minha gestão na Secretaria de Esportes. Isso é normal, é comum. Faz parte do jogo político. Mas eu encaro com naturalidade.

 

A Secretaria trabalhou com um orçamento muito apertado nesses três anos. Mesmo com essa dificuldade, o que você conseguiu realizar? – Primeiro, trabalhei por paixão. Recebemos apenas 0,2% do orçamento do DF, que representam cerca de R$ 60 milhões. Metade desse valor era para custeio. Investimento, quase nada.

 

Como você se virou? – Uma das inovações que eu trouxe para dentro da Secretaria foram as parcerias com a iniciativa privada.

 

Usando, inclusive, seu prestigio pessoal… – Com certeza. Entendi que eu tinha um nome, uma história. Por que não usar isso em prol da comunidade esportiva e daquilo que eu acredito que é o esporte. Muitas das políticas que desenvolvi, dos eventos que a Secretaria realizou, eu consegui da iniciativa privada. Parceiros que, vendo nosso comprometimento com a prestação de contas, a transparência do processo, se tornaram grandes colaboradores durante esses três anos.

 

Quais ações você destacaria? O que mais lhe empolgou? – Me empolgou a realização do revezamento da tocha olímpica em que Brasília foi a primeira dentre mais de 400 cidades por onde a tocha passou. Nos Jogos Olímpicos não estavam previstos os dez jogos da Seleção Brasileira de futebol aqui em Brasília. Os Jogos Escolares da Juventude, antigos JEBs, que não vinham para Brasília há mais de dez anos. No ano passado tivemos mais de 3.500 alunos atletas do Brasil inteiro, das 27 federações. Uma parceria incrível com a educação local.

 

Que tipo de apoio vocês deram aos estudantes? – A democratização de algumas políticas. Por exemplo, o Compete Brasília hoje é uma lei para o atleta e para o para-atleta. Ela auxilia nas passagens aéreas e terrestre para que eles possam desenvolver suas práticas, disputar e evoluir, tanto para os atletas quanto para as comissões técnicas. Historicamente, esse projeto era muito visado para interesses políticos – um certo grupo de modalidades que apoiavam tal secretário era mais contemplado do que outras modalidades. Quando nós chegamos, a Secretaria só tinha contemplado cerca de 30 modalidades. Ao final da minha gestão nós contemplamos mais de 70 modalidades. Além disso, no ano passado mais de 4 mil atletas viajaram com recurso do Fundo de Apoio ao Esporte, o qual nós regularizamos.

 

Como assim? – Porque era um fundo que estava lá, tinha superávit, mas ninguém se preocupava em regularizá-lo para usar esse recurso. Enfim, só um apaixonado pelo esporte entende as dificuldades. Porque a vida inteira eu fui gestora no esporte, trabalhei, participei. Toda essa pirâmide do esporte eu vivencie; eu sai do desporto escolar, depois entrei nos clubes, estudei em escolas públicas. A base do esporte está na escola.

 

O que essa experiência na gestão do esporte e no governo pode contribuir para o mandato de uma senadora? – Primeiro, a transparência e a ética. Eu acho que em todo processo que você vai desenvolver na sua vida, primeiro tem que ter a confiança das pessoas que estão ao seu lado. Foi uma das coisas que eu tive que vencer sendo uma ex-atleta, desconhecida. O que ela é? Cuidou de um time de vôlei e foi atleta. Para trabalhar no Executivo do serviço público, tive que ganhar a confiança dos meus servidores, a confiança do esporte na cidade.

 

Como? – Tudo é questão de postura, transparência e comprometimento. O maior desafio que tive nesse processo, foi ser a primeira mulher secretária de Esportes. É um ambiente extremamente preconceituoso.

 

E pode vir a ser a primeira senadora de Brasília … – E nascida em Taguatinga, com muita honra, muita paixão.

 

Quem acompanha a política local fica com a sensação de que você era uma carta na manga do governador Rollemberg. Primeiro ele lançou a ex-secretária de Planejamento, Leany Lemos, e depois sacou o seu nome da manga, deixando a Leany na suplência… – Foi bom você falar disso, porque as pessoas vêm falar: “você está dando tiro no pé. O Rollemberg está te usando”. Na verdade, eu quero que entendam que eu sempre fui uma mulher com muita personalidade. Eu entrei para a política. A política não é a minha vida, não é minha profissão. Eu encaro como uma missão. Tenho total desapego a cargos. Todo mundo diz que eu tinha praticamente certa uma cadeira na Câmara Legislativa. Mas eu tive uma conversa com as Executivas Nacional e local do PSB, com a minha família e, principalmente, com meu marido. Conversei com meus amigos do núcleo político.

 

E o que eles disseram? – Entenderam que eu vi o Senado como um desafio de renovação, de poder representar Brasília, de comprometimento maior, de ser a primeira senadora de Brasília. O jogo é jogado. Estamos todos na mesma disputa.

 

Afinal, Rollemberg lhe usou ou não? – Não me usou. Eu falo claramente: ele sempre deixou claro que gostaria muito de me ver no Senado. Se não for agora, daqui a quatro anos. Porque eu vim para política para ficar. Amo Brasília. Rodei esses três anos por todos os cantos do DF. Eu sei a realidade principalmente dos jovens e das crianças.

 

Então o próximo degrau é a disputa pelo governo? – O futuro a Deus pertence. Eu vivo degrau por degrau. Hoje eu estou enfrrentando, talvez, depois do esporte, o maior desafio da minha vida, que eu encaro com muita responsabilidade, porque o brasileiro e o brasiliense estão cansados de política.

Taguatinga não tem um histórico de políticos muito corretos. Alguns, inclusive, foram presos. Como você espera ser cobrada pelos eleitores? – Hoje nós temos tantas plataformas, tantos órgãos de controle! Dentro da Secretaria eu vivi isso diariamente, com a Controladoria. A primeira coisa é como você se comunica com a população. É dar publicidade desse trabalho. A população cansou de ser enganada. As pessoas se informam, estão inteiradas sobre os recursos públicos, para onde estão sendo direcionados, como o gestor está utilizando esses recursos. Então, eu estou muito tranquila, e quero mudar essa história, esse histórico dos políticos de Taguatinga.

“Quero mudar essa história, esse histórico dos políticos de Taguatinga”. Foto: Thiago Oliveira

Os parlamentares representam um custo muito alto para a sociedade. O gabinete de um senador consome milhões. De quais benefícios você abriria mão? – De moradia, terno, creche. Mas acho que tenho que fazer um gabinete qualificado.

 

O senador Reguffe é uma referência? – Ele é uma referência nesse sentido.

 

Você não acha que ele cortou demais? – Ai é um critério dele. Obviamente que eu vou ver o que me atende, porque eu não quero fazer um trabalho ruim no Senado. Quero abraçar as pautas nacionais, mas quero também acompanhar o governo local.

 

Sem assumir cargos? – Exatamente. Eu quero acompanhar, porque, como senadora, eu posso trazer recursos. E quero acompanhar para que áreas estou trazendo esses recursos, e onde estão sendo investidos.

 

Segundo as pesquisas, Rollemberg tem em torno de 50% de rejeição. Na rua, como é a sensação de caminhar com alguém que, às vezes, é hostilizado? Como você se defende disso? – Quando aceitei o desafio de entrar para a política, eu estava no governo dele. Trabalhei no governo dele desde o dia 1º de janeiro de 2015, quando nós sentamos na residência oficial para definirmos o planejamento estratégico do governo, e nos deparamos com o rombo de mais de R$ 6 bilhões, entre dívidas do exercício anterior e o que tínhamos a pagar, mais greves diárias, salários atrasados. A gente se deparou com aquela realidade. Se eu, na minha simples paz, tomei um choque, tive que reduzir pessoal, contratos e convênios, imagina para um governador que tem um cargo político. Ele teve que tomar decisões muito impopulares. Teve que optar entre ser político e atender certas classes, ou ser responsável com as contas públicas. Ele escutou a área técnica, perguntando se não podia dar um pouco de aumento. Eu vi várias vezes ele frustrado porque ele sabia que aquilo seria um peso político, como está sendo até hoje. Mas a área técnica dizia: “governador não faça isso, porque se não será um novo rombo de mais de 2 bilhões”. E ele optou por ser responsável. E tinha que ser. Hoje não tem salário atrasado, não tem fornecedor com pagamento atrasado.

 

Com esse discurso você não acha que está sendo um para-raio para ele? – Acaba que todo mundo que está do lado dele. Não só eu. Tem a chapa proporcional e a própria coligação. Mas nós estamos ali porque acreditamos.

 

A Leany, aliás, está bem ativa nas redes sociais… – É verdade. Até porque ela foi secretária de Planejamento. Muitas das decisões que o governador tomou foi pela opinião dela. Afinal ela era a dona do cofre, junto com a Fazenda (Wilson de Paula). Então, é natural que ela defenda, porque ela estava diretamente com ele ali.

 

O que o brasiliense, e principalmente o taguatinguense, pode esperar da senadora Leila Barros? – Primeiro, compromisso com a cidade, muito compromisso com Brasília e com Taguatinga, e com quem vai me levar, quem sabe, a ser a primeira senadora de Brasília. Assumo o compromisso com a transparência, com empenho, de ser sangue novo e ter uma vontade enorme de fazer a diferença, de mudar a história, de poder, sinceramente, mudar a forma com que as pessoas enxergam hoje a política. Porque eu entrei na política acreditando que eu posso fazer a diferença. Andei por toda Brasília e vi que dá pra fazer muita coisa, e eu fiz com muito pouco. Então, sei que tendo um mandato, podendo fazer, tendo o poder de fazer o bem, dá pra realizar. Acreditem nessa nova geração de políticos que querem uma oportunidade. A gente não pode ficar com essa nuvem preta pairando sobre a gente, com essa descrença. Nós precisamos dessa oportunidade.

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