José Serra, a bola da vez

Foto: Roque de Sá/Agência Senado

A operação desencadeada nesta sexta-feira (3) contra o ex-governador José Serra (PSDB-SP) é a repetição de uma estratégia da Lava Jato para prorrogar a atuação da força-tarefa, que vence no dia 13 de agosto. No ano passado, a quinta prorrogação foi obtida sob a alegação de que os procuradores precisavam se defender das denúncias do site The Intercept Brasil (a Vaza Jato).

De quebra, às vésperas do prazo, a Lava Jato investiu contra a Cervejaria Petrópolis para investigar denúncias contra o empresário Walter Faria, presidente do grupo, por suspeita de lavagem de dinheiro disfarçada de doação eleitoral. A então PGR, Raquel Dodge, acabou acatando o pedido de extensão do prazo de validade da força-tarefa por mais um ano.

A novidade, porém, é a chegada de Augusto Aras ao cargo de Procurador Geral da República. Nos seus primeiros seis meses no cargo, ele estabeleceu uma guerra contra os lavajatistas. E ela está só começando. Aras promete fazer uma devassa na operação que já prendeu um ex-presidente, ex-governadores, ex-presidentes da Câmara e os maiores empreiteiros do País.

O PGR declarou, quinta-feira (2), à jornalista Eliane Cantanhêde, do Estadão, que “não se trata de linchar quem quer que seja, até porque isso seria cair nos mesmos vícios. Mas é preciso corrigir rumos e seguir regras universais para todos os procuradores. Não podemos ter animais que são mais iguais do que os outros, como em A Revolução dos Bichos (George Orwell)”.

Embora não diga claramente, a avaliação de Aras é a de que a Lava Jato foi ótima, até “virarem a chave”. Ou seja, até os procuradores de Curitiba passarem a ultrapassar limites e driblar a falta de provas. Cantanhêde escreve que há um “esgotamento” do modelo e é preciso transparência e tirar o excesso de poder e voluntarismo da Lava Jato, garantindo compartilhamento de dados e a participação da PGR. “Eu sou procurador-geral e não tenho o direito de saber o que acontece em Curitiba?”, reclama Aras.

O fato é que as acusações da PGR contra a Lava Jato, e da Lava Jato contra a PGR, vão piorar, com forte questionamento a ações e decisões de Curitiba. Na lista, as delações premiadas. Na avaliação da PGR e outros órgãos de controle, as multas aplicadas aos delatores não chegam a 10% de um valor razoável e eles estão leves, livres, soltos – e nadando em dinheiro desviado.

Na versão da Lava Jato, a intenção da PGR e do próprio Aras é destruir não só a operação, mas o próprio combate à corrupção. Eles dizem que é o oposto: retomar e aprofundar o combate à corrupção, que parou, em novas bases e práticas. Eles acusam a força-tarefa de ter engavetado 1.450 relatórios prontos, sem nenhuma consequência.

A lista da Lava Jato divulgada pelo site Poder 360, camuflando investigações indevidas contra os presidentes da Câmara (“Rodrigo Felinto”) e do Senado (“David Samuel”), foi só um aperitivo para tentar provar o uso de “métodos heterodoxos” da força-tarefa. Eles também não usavam simples gravadores, mas sim interceptadores. Ou seja: a PGR suspeita que grampeavam seus alvos sem autorização judicial.

Nessa guerra, ninguém está totalmente certo nem errado, mas a previsão é de que, entre mortos e feridos, os mais atingidos sejam os líderes da Lava Jato. Aí se chega a Sérgio Moro, o inimigo número um do PT, que passou a ser também dos bolsonaristas e agora corre o risco de ver a Lava Jato, a maior operação de combate à corrupção da história, virar um sonho de verão – ou um pesadelo.

(*) Com informações de Eliane Cantanhêde, do Estadão

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