Histórias candangas – Entrevista com Adirson Vasconcelos

Adirson Vasconcelos com o Presidente Juscelino Kubitschek no Correio Braziliense. Foto: arquivo pessoal

 

Adirson Vasconcelos, é o jovem jornalista de camisa branca e gravata a esquerda na foto acima. Chegou a Brasília em 1957 para cobrir, pelo Correio do Povo de Recife, a primeira missa e o lançamento da pedra fundamental da cidade. Em sua vida profissional trabalhou no Jornal do Commercio (1954/55), Correio do Povo (1956/58), Agência Meridional e revista Manchete (1959), Rádio Planalto e, por diversos períodos entre 1960 a 1995, no Correio Braziliense. Além de repórter, foi também diretor de redação, supervisor regional e assistente de administração da presidência do jornal Correio Braziliense em Brasília. Casado, com filhos e netos hoje se dedica a escrever seus livros, a curtir os amigos e relembrar e contar as histórias vividas ao longo de seus 80 anos.

Com sua alegria e muita disposição, Adirson nos conta nesta entrevista um pouco de suas experiências e desafios ao chegar num imenso canteiro de obras no Planalto Central que se transformaria, mais tarde, na capital do país.

O senhor chegou em 1957. Como foram seus primeiros tempos como jornalista na nova Capital? Esse primeiro momento, entre 57 e 60, vivi na Cidade Livre, hoje Núcleo Bandeirante. Era o tempo da epopeia da construção com espírito cívico, com Juscelino Kubitscheck no meio dos candangos. Houve muito jornalismo durante a construção. Naquela época era necessário ir ao prédio dos Correios na Cidade Livre ou ao da Novacap e lá transmitíamos as notícias por código Morse. Era um teclado com um botão que apertava e cada letra era um tipo de sinal. O jornalista entregava a um telegrafista que transmitia para o destino pedido. No destino tinha uma pessoa que transformava aquilo em letras. Tempos maravilhosos.

E como foram aqueles tempos? O tempo da construção de Brasília foi um tempo muito feliz, de muita amizade. Ninguém tinha família aqui. Um dependia do outro. Havia muita solidariedade, formávamos uma família. A gente procurava ser mais cordial, mais amigo. Tanto é que no tempo da construção ninguém se conhecia e dava carona um para o outro e aí já nascia uma amizade. A carona era uma instituição. Eu mesmo tinha um Jeep e levava muita gente pra lá e pra cá. Quando a gente via alguém com uma mala na mão já dizia: Aquele tem prioridade, pois vai viajar.

O que o senhor considera mais interessante dessa época como pessoa e como jornalista? O período 1957-60 é uma história lindíssima de muito entusiasmo, de cordialidade, principalmente de muito idealismo. Isso não era só com os médicos, jornalistas, advogados, mas com os candangos também. Pessoas simples, muitos analfabetos oriundos do Nordeste, de Goiás, do interior, que vieram para cá para fazer essa obra. Era uma oportunidade de trabalho, de emprego. E, observe bem, nesse tempo de 57, 58, ocorreu no Nordeste uma seca imensa. O gado morria, a plantação murchava e os “paus de araras” trouxeram esse pessoal para cá, pessoas de muita coragem, pernambucanos, cearenses. Eles vinham correndo da seca e, com a propaganda da construção de Brasília, eles chegavam e eram muito bem recebidos.

E como eles eram recepcionados? Na Cidade Livre tinha a Voz de Brasília que era uma amplificadora onde anunciavam as vagas de pedreiro, mestre de obras, marceneiro e a localização da obra. Ali chegavam aqueles caminhões com os retirantes. Não era negócio de ônibus não. Era na carroceria. Eles chegavam aqui e o governo federal, por meio da Novacap que colocou um posto do INIC – Instituto Nacional de Imigração e Colonização, fazia a triagem. Ninguém tinha qualificação profissional. Os candangos passavam por uma pequena entrevista para a empresa saber quais as habilidades do candidato. Cada um contava o que já tinha feito. Eles aproveitavam tudo e todos. Mesmos aqueles que não tinham experiência com obras, eram trabalhadores de lavouras, eram aproveitados nos projetos de paisagismo.

Como foi sua chegada aqui? Tinha uns 40 barracos aqui, tudo de madeira. Me hospedei no Hotel Souza. Eu cheguei para a cobertura no dia 12 de maio de 1957, numa viagem que durou 13 horas. Saí de Goiânia às 5 horas da manhã, e cheguei aqui às 18 horas. A rodoviária era no próprio hotel. A estrada completamente “carroçável”, não tinha asfalto. Eu vi muito grupo de candangos vindo a cavalos. A Cidade Livre era o QG da construção, era tudo de madeira. Tinha restaurante, rodoviária, tinha tudo ali. A ideia era ser um núcleo provisório, depois ia passar o trator e tudo desapareceria. Mas acabou ficando e hoje é o Núcleo Bandeirante.

Como era a cidade durante a construção? Aqui não tinha nada, sobraram apenas algumas árvores retorcidas. Hoje você vê todas essas árvores e foram eles, os candangos, que plantaram. Vieram para cá muitos botânicos, fizeram pesquisas para ver o que crescia aqui. O Lúcio Costa imaginou Brasília com muita arborização nas quadras. Aqueles candangos chegavam aqui sem experiência e aos poucos se adaptavam. Tínhamos aqui umas 40, 50 construtoras.  As pessoas mais especializadas eram trazidas de fora. Existiam os acampamentos dos operários. Eu morei no dos bancários. Tinha acampamento com 5 mil operários. Os alojamentos eram imensos e com refeitórios que cabiam mil, 2 mil pessoas. Na hora do almoço a sirene tocava e ia todo mundo. Os institutos de previdência, como o dos bancários, se encarregaram da construção de algumas quadras. Trabalhava-se dia e noite. Virava. A noite só se viam aquelas luzinhas de gambiarra.

O que o senhor destacaria dessa época? O presidente Juscelino costumava visitar as obras da noite para a madrugada. Ele despachava no Rio até às 19 horas, pegava o avião e vinha meio dormindo. Mais ou menos umas 22 horas, chegava aqui o avião, descia ali no Catetinho. Ele pegava um Jeep da Novacap acompanhado do motorista, do Dr Israel Pinheiro e de um ajudante de ordens, e ia madrugada a dentro visitando tudo que era obra e acampamento. Mas veja só, até hoje eu recordo isso porque eu vi muitas vezes. Eu tinha um esquema de informação do gabinete do presidente da Novacap, e eu sabia sempre que o presidente vinha aqui. Recebia a localização e me deslocava no meu Jeep. Eram informações muito privilegiadas porque só existia uma estação de rádio na presidência da Novacap, que recebia do Catete: “Olha o presidente vai viajar hoje no C47, o avião Douglas, às tantas horas, devendo descer em Brasília às tantas horas”. Eu acompanhava tudo. Era fã do presidente Juscelino e daquela obra. Nós estávamos aqui construindo aquela capital para o Brasil.

Os pioneiros afirmam que Juscelino era muito próximo dos moradores. O que o senhor viu? Era muito importante o que nós fazíamos aqui. Isso empolgava os jovens. Mas o que empolgava mais era quando o presidente ia aos acampamentos onde havia milhares de trabalhadores. Quando ele chegava os primeiros que viam começavam o zum zum.  Afável como ele era, cumprimentava a quem encontrava. Muitas vezes os candangos estavam sujos de barro, carregando ferros e cimento. Ele chegava sem segurança. Ninguém conhecia aqueles candangos, se tinham algum problema de valentia na sua terra… E ele os cumprimentava como se cumprimenta um deputado, um senador e reunia naquela rodinha, colocava a mão no ombro de um, de outro, começava uma conversa e, do alto da presidência da República ele dizia: “Conto com vocês para nós inaugurarmos esta capital em 1960”. Eu gravei isso, ele falou várias vezes para diversos grupos. Aqueles candangos ficavam doidos, o presidente da República pedir a eles, dizer que contava com eles, os deixava envaidecidos, motivados. Em 24 horas aquela fala repercutia por todo o canteiro da obra. Quando ele chegava no refeitório, que era muito grande, aí é que a notícia se espalhava rápido, olha que poder de multiplicação. Os candangos chegavam no refeitório se gabando: o presidente disse isso, disse aquilo outro. Em pouco tempo todos sabiam o que o presidente tinha dito com um espírito de amizade e fraternidade. De boca em boca a mensagem dele era transmitida como faz hoje a televisão. Existia uma grande admiração por Juscelino que mesmo presidente da República falava igualmente com todos; ele era um grande trabalhador.

O que fez o senhor ficar aqui? Esse entusiasmo do tempo da construção eu reportava. Vim para cobrir a primeira missa e gostei tanto que fiquei. O que vivi aqui transformou o meu ser, a minha alma. Eu era correspondente do Correio do Povo, do Recife, dos Diário Associados pela Agência Meridional, e eu mandava, diariamente, os textos pelo telegrafista. A Meridional era uma agência que Chateaubriand criou para abastecer de notícias todos os jornais dos Diários Associados, do Amazonas onde tinha o Jornal do Commercio, até o Rio Grande do Sul. Eu vivi isso intensamente e foi um tempo maravilhoso com esses exemplos de entusiasmo dos candangos, da comunidade de um modo geral; havia uma solidariedade tremenda. Nunca me esqueço que o padre Roque sempre visitava o pastor Elias Sobrinho e também o pessoal de São Sebastião que era uma comunidade espírita. Isso numa época em que as religiões eram meio afastadas. Hoje esse ecumenismo progrediu muito. Eles realizaram um trabalho psicológico extraordinário, passando conselhos e acolhendo os angustiados sem notícias das famílias. Naquele tempo a união de todos era muito grande.

Quem vive nos grandes centros não consegue imaginar como é viver numa cidade que está 100% em obras. Como era reportar para os jornais de fora esse espírito cívico de todas essas pessoas que vinham de outras cidades e se uniam numa confraternização para a construção de Brasília?  Isso era uma coisa que ocorria nos primeiros tempos. O telefone só chegou aqui em 59, então para mandar notícias era o Morse. O próprio presidente, quando estudante, era telegrafista. Essa profissão que foi tão significativa aqui para gente mandar as informações e notícias foi exercida pelo próprio Juscelino nos correios, em Belo Horizonte. Agora, para mandar fotografias daqui, não existia forma de transmitir. Ei tinha uma máquina Rolleiflex e mandava o filme, por que não tinha laboratório, de avião e depois pelo Morse a gente ia explicando como ficavam as fotos. O aeroporto provisório, que era de madeira, foi inaugurado em 1958. Na verdade, foi um pouco antes. Um engenheiro ficou encarregado de fazer uma pista de avião e, no dia 3 de maio de 57, essa pista definitiva foi inaugurada com a descida do avião do presidente. Nela desceram também muitos outros aviões que trouxeram os convidados para a primeira missa. Esse lugar hoje é a Base Aérea. Após deixar Juscelino, o avião foi a São paulo buscar Dom Carlos Carmelo Mota e Ada Rogato, a primeira mulher a obter licença de paraquedista, primeira piloto de planador e a terceira a se brevetar em avião. Sobre ela há uma curiosidade. Ela foi a todas as capitais pilotando um “Teco Teco”, mandava rezar uma missa e deixava uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Assim, o presidente a convidou para fazer o mesmo em Brasília.

Por que uma missa no lançamento da pedra fundamental da cidade? O presidente não queria que fosse uma pedra convencional com uma caixa com documentos fotos etc. Ele queria uma missa, como ocorreu no descobrimento do Brasil, queria uma missa como um batismo, um ato cristão, um batismo espiritual. Por quê? Porque no descobrimento do Brasil, Cabral descobriu o litoral do Brasil, e o gesto de construir a capital no interior, aqui no Centro Oeste, era uma outra descoberta. O país era voltado para o além-mar e agora estava se interiorizando. Pois bem, nesse dia, 3 de maio de 57, eu tive a honra de estar aqui”.

 

 

 

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