Hélio Doyle: “Ibaneis é uma incógnita”

Hélio Doyle sobre secretariado: “Ser ministro do Temer não é currículo” Foto: Antonio Sabino

Virada de ano, governo novo. Qual sua expectativa para a gestão de Ibaneis Rocha? – Eu tenho dito que ainda é, para mim, uma incógnita. Não está claro como vai ser o governo. Todos os sinais que o Ibaneis tem dado na transição são contraditórios. Ele vai pra um canto, pra outro. Chama gente aqui de Brasília, chama gente de fora…

Você acha que é boa essa mescla de gente daqui e de fora? – A gente não deve ser xenofóbico a ponto de dizer que todos têm que ser de Brasília. Não sou a favor disso. Mas acho que está excessivo. Tem gente demais. Muita gente que mora aqui, mas que só conhece a Esplanada dos Ministérios e o caminho do aeroporto. É um pessoal que veio para trabalhar no governo federal e passa a ter residência em Brasília.

Essa turma está ocupando os espaços do pessoal daqui? – Acho que tem um excesso de gente de fora e excesso de ministros do Temer. Vamos ser realistas: ser ministro do Temer não é currículo. Ainda mais ministros que assumiram quando os titulares se desincompatibilizaram para concorrer às eleições. São suplentes. Não tem nenhum brilhante…

Assim como surpreendeu na campanha, o Ibaneis não pode surpreender também como governador? – Ele ainda pode ‘causar’. Embora, como eu disse, seja uma incógnita. Embora os sinais sejam contraditórios, tem uma mistura de nova política com velha política. Tem gente nova, gente renovadora, misturada com políticos tradicionais.

Ele estaria “dando linha”, como diriam os pescadores, para ver até onde essas pessoas conseguirão avançar, e depois fazer ajustes? – Pode ser. Eu prefiro acreditar que ele vai realmente renovar. O discurso do Ibaneis na campanha não foi contra a política, é bom deixar isso claro. Política é necessária e é importante. Foi contra esse jeito antigo de fazer política. Ele falava mal dos políticos: “Eu não sou de partido, sou da sociedade civil”. Espero que ele vá por este caminho. Embora alguns sinais não indiquem isso. Mas pode ser, sim, isso que você falou. Ele pode estar querendo ver até onde dá pra ir, até onde dá pra fazer. Espero que dê certo.

Ibaneis vem da OAB, de onde veio seu antigo correligionário do Maurício Corrêa. O que diferencia um do outro? Um foi senador e chegou a ministro do Supremo; o outro se elegeu governador já na primeira participação – O momento é outro. O Maurício foi num momento de regime militar, quando a OAB ganhou projeção, e ele próprio, pela batalha em defesa da democracia, contra ditadura.

Inclusive, à época, você era presidente do Sindicato dos Jornalistas e saiu do PT para o PDT para se aproximar do Maurício e ser candidato a deputado federal… – Foi. Eu senti um espaço reduzido no PT. Eu tinha algumas divergências. Você deve se lembrar daquele episódio no Colégio Eleitoral. Eu defendi a tese de que o PT deveria ir ao Colégio Eleitoral votar no Tancredo Neves contra o adversário que era da ditadura. Não precisava participar do governo. Aliás, é o que está acontecendo em Portugal. A esquerda se uniu, mas, alguns dos partidos que estão apoiando o primeiro-ministro não querem cargo no governo. Era o que eu defendia à época.

Você acha que o Haddad, se ganhasse com apoios, inclusive do Fernando Henrique Cardoso, ia fazer um governo petista? Foto: Antonio Sabino – Brasília Capital

Isto poderia ter acontecido agora na eleição presidencial? – No caso do Bolsonaro, eu acho que houve uma miopia da esquerda e muita vaidade do Lula e do Ciro Gomes, que não entenderam – digo, para quem não queria o Bolsonaro – que não era votar no PT ou no Haddad. Era votar contra o Bolsonaro. Depois de passada a eleição, que se acertassem. Você acha que o Haddad, se ganhasse com apoios, inclusive do Fernando Henrique Cardoso, ia fazer um governo petista? Não ia. Ia ter que abrir, que compor.

Mas, voltando ao PDT em 1986… – Sim, fui até candidato, contando com seu apoio (risos). A votação que eu tive naquela época significava 0,9% dos eleitores. Hoje, essa votação elegeria um deputado distrital. Só que aquela eleição era para deputado federal, porque nem existia distrital. O Maurício Corrêa se projetou brigando contra a ditadura. O Ibaneis fez uma gestão em outra época, mais para o advogado, em defesa dos interesses dos advogados. Para simplificar: a OAB elegeu o Maurício. O Ibaneis veio da OAB. Não foi a OAB que o projetou.

Os adversários o acusam de abuso de poder econômico. Qual sua opinião? – Eu não tenho como afirmar. Mas tem uma pessoa que se candidatou a deputado que dizia pra mim: “eu ia sempre a Santa Maria. Tinha um pessoal do Fraga, da Eliana Pedrosa, um pouquinho de Rogério Rosso. Aí, uma semana depois eu voltei lá, não tinha mais nenhum cabo eleitoral desses três. Só dava Ibaneis”. Aí, Orlando, você conhece campanha melhor do que eu. Você acredita que de repente aquelas pessoas gostaram do Ibaneis e passaram a apoiar o Ibaneis? Esses são alguns indícios…

“O Cristovam criou uma pinimba comigo que é histórica e que vem até hoje. Ele chegou a avisar o Rodrigo: ‘cuidado com Hélio Doyle’”

Hélio Doyle sobre o senador Cristovam Buarque (PPS)

É a escola do rorizismo, herdada pelo Tadeu Filippelli… – Ibaneis fez uma jogada arriscada que deu certo. Eu o conheço desde a OAB. Eu dizia para ele, que se ele queria ser um outsider, vindo de fora, sendo da sociedade civil, ele não deveria estar no MDB. Ele dizia: “Hélio, eu preciso de um partido forte, com estrutura, que tenha tempo de televisão”. Ele arriscou e deu certo. A minha impressão é de que se houvesse outro candidato outsider que conseguisse tempo de TV, ir aos debates e que tivesse aquela cobertura da TV Globo, poderia ter ganhado do Ibaneis. Poderia. Não afirmo. Porque ele tinha um diferencial que já foi falado: recursos. Talvez os outros não tivessem.

Quem era mais ‘novo’ do que ele? – Independentemente de ideologia? O Alexandre Guerra, do Novo, e o General Paulo Chagas, do PRP. Esses traziam uma mensagem nova.

Do outro lado, vimos um governo, do qual você fez parte e ajudou a eleger, que foi se desmilinguindo. Por que o Rollemberg teve uma rejeição tão alta, quase não chegando ao segundo turno, repetindo o Agnelo Queiroz? – No primeiro turno, o Rodrigo não saía de 11% a 13%. A campanha passando, e ele parado. O Rosso quase chegou lá, porque apoiou o Bolsonaro e houve uma movimentação de igrejas evangélicas em torno dele. Quase deu certo. Além disso, tinha o dinheiro do Fernando Marques (SD) de alto poder financeiro. Foi por pouco que o Rollemberg não repetiu o Agnelo, de ser governador e sequer passar ao segundo turno. Eu acho que são os erros do próprio governo, do próprio Rollemberg. Não adianta ficar reclamando de crise. Ele pegou um rombo. Mas é aí que você vê quem realmente é bom para enfrentar o problema. O fácil é fácil.

E qual a sua participação nisso? Você faz uma mea culpa? – Na verdade, eu tive muito pouco tempo. Fiquei seis meses no governo. Inclusive, foi uma decepção muito grande. Eu investi nisso. Larguei tudo que estava fazendo para fazer a campanha. Tive prejuízos econômicos por isso. Fechei agência, me aposentei da UnB, saí do emprego que me garantia alguma renda. Tudo para me dedicar à campanha. Eu acreditava no projeto, que seria um governo que ia dar certo, que estaria quatro anos nesse projeto. Para mim, o governo não dar certo foi uma frustração muito grande. O fato de sair com seis meses foi uma frustração também.

Hélio Doyle: “Eu acreditava no projeto”, sobre eleição de Rollemberg. Foto: Antonio Sabino – Brasília Capital

Aquela trava nos investimentos nos primeiros seis meses era ordem do Rollemberg ou decisão sua? – Existia uma governança composta pela Fazenda, Planejamento, Casa Civil, Administração e o governador. O vice não participava. Era esse comitê que tomava as decisões sobre utilização do dinheiro. O governo começou numa situação muito ruim. Tínhamos que pagar dívidas de fornecedores. Se você não paga, o cara para de fornecer. Por exemplo, o hospital que tinha convênio dizia: nós vamos parar de atender se vocês não pagarem. E era uma dívida enorme. E assim vai: o fornecedor de medicamentos, o cara que fazia manutenção das escolas… Então, eu reconheço que havia necessidade de dar uma tranca. No meu caso, eu tinha, entre outras atribuições, administrar a publicidade. Não dava para gastar com publicidade num momento como aquele. Eu tinha que admitir isso. Eu não tinha como chegar na governança e querer gastar com publicidade quando a gente ainda tinha quatro anos pela frente e sabia que os seis primeiros meses seriam pesados. Tinha que pagar o 13º dos funcionários da saúde e da educação. E tinha, além disso, o custeio da máquina.

Aí não foi um erro estratégico? Não foi aí que gerou esta imagem que o governo não conseguiu desconstruir até hoje? – Primeiro: eu entendo o raciocínio e até concordo com ele. Se você não gasta com publicidade, você desagrada os veículos que precisam desse recurso porque há uma dependência muito grande com relação à publicidade de governo. Mas, foi uma questão de opção. Ou você resolvia problemas mais prementes ou cuidava da imagem. É mais ou menos isso: estou precisando de comida, mas vou no barbeiro cortar meu cabelo. Eu não acho que isso tenha sido decisivo. Havia muito tempo para recuperar, porque foi no início do governo. Não foi um problema de verba. Foi um problema de desempenho mesmo do governo. As pessoas viam que as coisas não aconteciam.
Não assumir o Centro Administrativo foi um erro? – Você se lembra do anúncio das PPPs? Na época eu escrevi: não vão fazer. Porque tinha problema das garantias do Centro Administrativo. Talvez o Ibaneis encontre uma solução para o Centrad. Havia ineficiência para tocar as parcerias. Os empresários reclamavam. Não é só isso não. A questão com os servidores públicos prejudicou demais a imagem do governador. A Polícia Civil, principalmente. Isso desgastou muito a imagem do governo. Aquelas campanhas de rua o atacavam diretamente. Eu acho, sinceramente, que a comunicação não funcionou nesse governo.
Do começo ao fim ou só depois que você saiu? – Eu diria que do começo ao fim. O que eu posso falar em meu favor é que nós estávamos ali montando as bases para funcionar. Eu saí com seis meses. Mas, a comunicação se prejudicou porque o governo não dialogava com a sociedade, nem com a CLDF, nem com sindicatos, nem com entidades federais.

Rollemberg se fechou? – Ele se fechou por uma postura equivocada de achar que as coisas sairiam dali brilhantemente e a sociedade aceitaria porque “nós somos bonzinhos e a gente quer fazer a coisa certa”. Não é assim que funciona.

O senador Cristovam diz que você é uma pessoa centralizadora e não trabalha em equipe. O que você responderia para ele? – Que ele devia perguntar isso para minha equipe. Para as equipes com quem eu trabalhei ao longo da vida. Nas secretarias de governo do Cristovam, do Roriz e do Rodrigo, nas redações. Conversa com quem trabalhou comigo. Ele vai ver que eu sou totalmente o contrário do centralizador. O oposto disso. Eu sou descentralizador. Eu tenho muito cuidado de quando delegar, saber cobrar. Criaram alguns mitos a meu respeito que são totalmente falsos. Já chegaram a dizer que eu trato mal os subordinados. Isso é totalmente o oposto. Sempre tratei bem as pessoas. O Cristovam criou uma pinimba comigo que é histórica e que vem até hoje. Ele chegou a avisar o Rodrigo: “cuidado com Hélio Doyle”. O próprio Rodrigo poderia ser testemunha que eu não sou centralizador. Eu falava pra ele: “você precisa delegar funções, até mesmo fora do governo”.

O que você vê como perspectiva para o próximo ano em relação à política e à economia de Brasília, com Ibaneis, e do Brasil, com Bolsonaro? – Brasília é uma unidade da Federação privilegiada. Temos um território pequeno, quatro milhões de habitantes (se contar o Entorno), um orçamento de R$ 42 bilhões (sendo R$ 14 bi do Fundo Constitucional). Tem tudo para ter um bom governo. Tem dificuldades? Tem! Não é chegar igual o futuro secretário de Fazenda e dizer que não tem sentido ter déficit. Porque tem dificuldade.

Hélio Doyle: “O que eu temo no governo Bolsonaro é uma vulgarização da violência, do preconceito contra gay, índio, negro, o fundamentalismo religioso e a perseguição às religiões de matriz africana” Foto: Antonio Sabino – Brasília Capital

Inclusive querendo reduzir alíquotas de impostos… – Não há teoria econômica que possa explicar isso. Essa conta não fecha. Quer dar aumento, paridade das polícias, contratar gente e reduzir impostos. Reduzir imposto de herança e de transmissão de bens não movimenta a economia. Simplesmente evita que as pessoas que iam pagar paguem um pouco a menos. Não é como desonerar folha de pagamento ou desonerar despesas. No IPVA, por exemplo, uma pessoa que tem um carro de R$ 100 mil pagaria um IPVA de R$ 3.500. Se aprovada a redução, cairia para R$ 3.000. Essa pessoa, que era inadimplente vai passar a pagar em dia e movimentar a economia com esses R$ 500? Isso é uma maluquice. Mostra a conta. Se mostrar a conta, o custo-benefício, eu acredito. Mas, ainda assim, eu acredito que o Ibaneis possa fazer um bom governo.

E sobre o Bolsonaro? – A primeira coisa é o seguinte: a eleição é legitima e ele será o presidente da República. Não tem sentido ficar questionando, por mais que possa ter havido influência de fake news etc. O que eu temo no governo dele, mais do que medidas econômicas que possam prejudicar parcelas importantes da população com um liberalismo exacerbado demais – isso faz parte do jogo; quem ganha pode fazer essas políticas –, o que eu temo é uma vulgarização da violência. Vulgarização do preconceito contra gay, índio, negro. O fundamentalismo religioso. Aumentar a perseguição das religiões de matriz africana. Não é discutir se houve ou não ditadura. Eles têm todo direito de achar que teve ou que não. Isso não é o mais grave. O grave é o incentivo à homofobia, à violência, ao porte de armas. Isso é o que mais temo. Mas acho que o governo Bolsonaro vai encontrar a conjuntura internacional numa situação melhor. Isso pode beneficiar. Mas vai ter enormes dificuldades para implementar o que ele pretende.

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