Guerra de Laudos

Jair Rodrigues, diretor da empresa que faz a manutenção das caldeiras do HRAN, afirma que o óleo não veio do Hospital
Jair Rodrigues, diretor da empresa que faz a manutenção das caldeiras do HRAN, afirma que o óleo não veio do Hospital

João Carlos Bertolucci e

Orlando Pontes

 

Único veículo de comunicação a recolher amostras do óleo que provocou uma mancha no Lago Paranoá na manhã do dia 17 de outubro e solicitar, com exclusividade, a análise do material a um laboratório particular (de uma empresa de pavimentação prestadora de serviços ao GDF que, por este motivo, pede total anonimato), o Brasília Capital, Editoria Navegar apurou que o solvente encontrado no espelho d’água é tolueno, cuja fórmula química é C6H5CH3. Já o solvente do óleo usado nas caldeiras do Hospital da Asa Norte (HRAN) é o benzeno (C6H6).

Isto, talvez, ponha luz sobre o laudo emitido pelo Laboratório de Materiais e Combustíveis do Departamento de Química da Universidade de Brasília (UnB). Assinado pelo Químico Responsável David Mark Mendes Pinho, e pelo responsável pelo laboratório, Professor Doutor Paulo Anselmo Z. Suarez, o documento da universidade afirma que, “apesar de não ter sido feita uma identificação dos produtos que compõem as amostras, devido à grande complexidade das mesmas, as análises realizadas permitem concluir que existe uma grande similaridade entre os materiais coletados no Lago Paranoá e na caldeira do HRAN”.

Não é o que entende o engenheiro Jair Rodrigues da Costa, dono da Técnica Construção, Comércio e Indústria, empresa responsável pela manutenção das caldeiras do HRAN. A pedido da Secretaria de Saúde, ele contratou o Quinossan – Laboratório Químico Ltda, que produziu um relatório de avaliação de contaminantes do lago, assinado pelo Químico Elias Divino Saba.

O químico começa seu trabalho explicando as características do óleo combustível utilizado para geração de energia térmica, esclarecendo que o produto só atinge o estado líquido (capaz de escoar, por exemplo, por uma galeria de águas pluviais) a uma temperatura mínima de 60ºC. O óleo combustível é dissolvido no benzeno (C6H6), um hidrocarboneto aromático também chamado benzol, ciclohexatrieno, hidreto de fenila e nafta de carvão, usado em lubrificantes, peças automotivas, tinta seladoras e preparados de lavanderia.

Em suas considerações finais, Elias Saba escreve que “a análise das amostras coletadas no lago e o óleo coletado na fonte da caldeira do HRAN mostraram divergências que comprovam que o óleo da caldeira não foi responsável pela mancha que apareceu no Paranoá, e a evidência está no solvente benzeno, presente no óleo BPF OC-2A, que não está presente nas amostras de água coletadas e analisadas do lago”.

E conclui: “outra evidência é a presença do tolueno em todas as amostras coletadas no lago Paranoá e no Iate Clube de Brasília. Esse solvente não apareceu no óleo BPF OC-2A, coletado no reservatório da caldeira do HRAN e também ausente na caixa de contenção do hospital. Portanto, mediante o exposto, a contaminação ocorrida de material betuminoso no Lago Paranoá, no Iate Clube, não é proveniente do HRAN”.

Na quarta-feira (30), diante do resultado do estudo do laboratório Quinossan, o Instituto Brasília Ambiental (Ibram) divulgou nota reafirmando que levará em consideração o laudo da UnB e, portanto, a multa de R$ 280,4 mil será aplicada à Secretaria de Saúde, que a repassará à Técnica Construção. Além disso, a empresa deve ser responsabilizada pelo trabalho de limpeza do lago, que está sendo feito pela empresa CDA – Centro de Defesa Ambiental – a um custo superior a R$ 2 milhões.

“Não é assim que as coisas funcionam em nosso país. Já solicitamos uma perícia judicial para confrontar os dois laudos. Caberá à Justiça, e não ao Ibram, decidir de quem é a culpa da poluição do lago”, rebate Jair da Costa.

 

Saiba +

O incidente do dia 17 causou um dos mais graves acidentes ambientais da história no Lago de Brasília, poluindo uma grande extensão das suas margens, causando a morte de animais, aves e peixes, além de causar danos em centenas de embarcações ancoradas nos píeres de clubes e marinas.

O laudo não afirma, em sua conclusão, que o material analisado é óleo de caldeira, mas apenas aponta evidências de “similaridades”. O secretário de Meio Ambiente, Eduardo Brandão, disse que o material é “algo parecido” com óleo de caldeira.

O jornal Brasília Capital, Editoria Navegar, foi o único veículo de comunicação de Brasília a encomendar uma análise própria e divulgar, com exclusividade, que a mancha encontrada no lago não era óleo de caldeira, mas, sim, piche. Técnicos de uma empresa de pavimentação, que pediram total anonimato, analisaram o material e constataram ser betume espesso de hidrogenato de coloração escura, extraído do petróleo. Ou seja: piche, material usado para pavimentação asfáltica. Inclusive, nas proximidades do Lago Paranoá, na avenida L2 Norte, e nas proximidades Palácio do Planalto e da Vila Planalto, onde estão sendo realizadas obras de recapeamento de vias.

O prejuízo ambiental foi de grandes proporções, tanto para a fauna do lago como, também, para os seus usuários. E o trabalho de limpeza não tem prazo para ser concluído, segundo informou à nossa reportagem, na quinta-feira (31) à tarde, o fiscal Soares, funcionário da Petrobras que está a serviço do Centro de Defesa Ambiental (CDA) da empresa, que contratou a Alpina Briggs para realizar o serviço. Sua equipe é formada por 13 pessoas e está usando barreiras de contenção plásticas e de espuma em sua tarefa.

One Response

  1. Não faz sentido ser do asfalto, acredito que haja várias bocas de lobo que despejam as águas pluviais no Lago Paranoá, e como saiu óleo de somente uma?

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