Garçons faturam até R$ 7 mil com gorjetas dos turistas na Olimpíada

 
 

Quitação de carro, reforma na casa, investimento em cursos e uma bela viagem ao Ceará. Esses e muitos outros planos estão sendo feitos por garçons de bares do Rio por conta da gorjeta caprichada – além dos 10% usuais sobre o valor da conta – que têm recebido dos estrangeiros, hospedados na cidade para a Olimpíada.

Bares lotados, consumo acima das expectativas e uma gorjeta que faz qualquer pessoa abrir um largo sorriso. Em alguns estabelecimentos da Lapa, de Copacabana e do Leblon, visitados pelo G1, garçons estimam arrecadar até R$ 7 mil só com a famosa “caixinha”, até o final da Paraolimpíada – que acontece entre 7 e 18 de setembro.

Foi difícil fazer Pedro Araújo, mais conhecido como Juninho, do Bar Jobi, no Leblon, parar cinco minutos para dar entrevista. Conhecido por lá como “garçom simpatia”, Juninho é um dos funcionários que mais ganham gorjetas e também um dos mais assediados.

“Atendo a mais de cem gringos por dia, eles são mão aberta, sabem gratificar bem a gente. Mas eu fico feliz mesmo de poder atendê-los e não me incomodo quando não recebo. Mas, claro, que a gente gosta de ganhar um dinheirinho a mais”, conta Juninho, que trabalha há 22 anos no bar e é amigo de vários clientes.

Segundo o garçom, a gorjeta extra tem variado de R$ 10 a R$ 50 por estrangeiro. Um crescimento de mais de 100% comparado a meses anteriores. “Hoje mesmo ganhei R$ 150 de uma única pessoa”.

Se tudo der certo, Juninho quer chegar aos R$ 7 mil, que colocou como meta. “Quero levar minha mulher e meus filhos para uma viagem para o Ceará”, revelou o veterano na arte de servir bem o freguês.

 

Bar em Copacabana lotado de gringos (Foto: Patricia Teixeira/G1)
Bar em Copacabana lotado de gringos (Foto: Patricia Teixeira/G1)

 

Edimar Pinto, figura conhecida no Bar Belmonte do Leblon, está sorrindo à toa. Segundo ele, a gorjeta está chegando a mais de R$ 700 por semana.

“Para tirar esse valor antes da Olimpíada, a gente precisava trabalhar quase dois meses”, indicou Edimar, que espera arrecadar R$ 4 mil e, com o dinheirinho extra, viajar para a Região dos Lagos, no estado do Rio, por uma semana.

Apesar de Edimar eleger os americanos como os mais generosos na hora gorjeta – uma unanimidade entre os garçons ouvidos pelo G1 –, foi um mexicano que lhe deu a maior caixinha: R$ 140. 

Ricardo Araújo, também do Belmonte do Leblon, quer pegar parte do dinheiro que ganhar para comprar uma casa no Pavão-Pavãozinho, em Copacabana.

“Estou tirando R$ 650 por semana, antes não chegava a R$ 200 [um crescimento de 250%]. Todos os garçons contam com esse dinheirinho da gorjeta. Teve um dia que ganhei R$ 200 de um americano”, contou.

Garçom Luiz Martins, do Rota 66, quer reformar o banheiro de casa (Foto: Patricia Teixeira/G1)
Luiz Martins quer reformar o banheiro de casa (Foto: Patricia Teixeira/G1)

 

Em Copacabana, Luiz Martins, do Rota 66, diz que vai usar o extra no seu orçamento para reformar a casa. “Vou mudar o banheiro, não aguento mais minha mulher reclamando no meu ouvido”, divertiu-se.

De acordo com Luiz, as duas últimas semanas foram as melhores em termos de movimento. “Estou esperando até R$ 5 mil [a mais] e creio que vou atingir a meta.”

O carrinho branco, ano 2006, do garçom Mark Silva, do Leviano Bar, na Lapa, vai poder ser quitado graças à “gorjeta olímpica”, diz ele. “Faltam 22 prestações, mas acho que vou conseguir quitar quase tudo”, comentou Mark, calculando receber R$ 4 mil até o fim dos Jogos Olímpicos.

 

Mark Silva vai tentar quitar seu carro com as gorjetas da Olimpíada (Foto: Patricia Teixeira/G1)
Mark Silva vai tentar quitar seu carro com as gorjetas da Olimpíada (Foto: Patricia Teixeira/G1)

“Os americanos adoram dar caixinha. Acho que é da cultura, o dólar em alta, eles vieram com muito dinheiro e a conta sai barata para eles. Um gringo consumiu quase R$ 1 mil só de shots[pequenas doses] de licor [cada dose custa R$ 22,90]”, justificou Mark.

Quero fazer cursos de idiomas para atender melhor os clientes, quero investir essa quantia extra para me profissionalizar”
Charles Souza, garçom

Charles Souza, do Bar da Boa, na Lapa, não mirou tão alto. Pretende receber até R$ 2 mil, que serão investidos em sua capacitação. “Quero fazer cursos de idiomas para atender melhor os clientes, quero investir essa quantia extra para me profissionalizar.”

Renda de US$ 1,8 bi
De acordo com a Riotur, a cidade do Rio recebeu cerca de 350 mil estrangeiros para a Olimpíada e 650 mil turistas brasileiros. A renda gerada pelos cerca de 1 milhão de visitantes é de US$ 1,8 bilhão – o equivalente a R$ 5,7 bilhões.

Para atender a demanda, o bar e restaurante Galeto Sat’s, em Copacabana, contratou sete garçons extras, que reforçarão o time da casa até o fim da Paralimpíada. De acordo com o caixa Eliésio Rodrigues: “Só assim conseguiriam atender os turistas sem prejudicar o atendimento”.

“Durante a parte do dia, a gente recebe cerca de 300 pessoas, sendo 60% de estrangeiros. A frequência à noite é maior”, explicou Eliésio. Ainda segundo ele, faturamento do restaurante – que teve até garçom carregando a tocha olímpica – teve aumento de 50%. “Superou as expectativas.”

 

Consumo até 50% maior
Dados da Sindicato dos Garçons, Barmans e Maîtres do Estado do Rio de Janeiro (Sigabam) indicam que o consumo nos bares e restaurantes do Centro e da Zona Sul aumentou de 35% a 50%, números representados por clientes do exterior.

Por conta dessa movimentação extra, houve também uma média de 30% de contratações de empregos temporários, boa parte delas de garçons.

 

‘São merecedores’
Para José Soares, vice-presidente do Sigabam, o índice de gorjeta registrado pelos garçons está acima da média. Ele justifica, no entanto, como uma “grata surpresa”.

“A coisa da caixinha já era bastante esperada, é uma tradição mundial. Além dos 10% da taxa de serviço, os turistas ainda deixam uns valores na mão dos garçons. Esse índice relatado pelos garçons é uma surpresa boa, pois está acima do esperado, mas sabemos que eles são merecedores, pela simpatia e pela assistência que dão”, festejou José Soares.

 

Charles Souza diz que os americanos são os mais generosos na caixinha (Foto: Patricia Teixeira/G1)
Charles Souza diz que os americanos são os mais generosos na caixinha (Foto: Patricia Teixeira/G1)

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