Falta luz após 50 anos do golpe

Cristovam Buarque 

 

Em 31 de março, fez 50 anos do golpe militar no Brasil, quando eu tinha 20 anos. Foi de repente e fizeram a escuridão no País. Foram 21 anos de gritos, de negociações, de conversas, de manifestações. Até que, um dia, o grito fez o dia. E a luz apareceu.

Mas a luz não apareceu para 13 milhões de analfabetos, que continuam em um tipo de escuridão. Não são torturados fisicamente. São torturados intelectualmente a cada segundo em que estão despertos no dia a dia da vida.

A luz não chegou para as mães carregando os seus filhos em portas de hospitais, à espera de um médico; para dois terços de nossos jovens (40 milhões), que hoje estão matriculados em pseudoescolas e que vão concluir – um terço apenas – o ensino médio de má qualidade.

A luz não chegou para 50 mil vítimas de assassinatos no Brasil, talvez um milhão desde que a luz apareceu, mas nós não conseguimos fazer um país pacífico.

Nós não podemos dizer, ainda, que a luz chegou para milhões de brasileiros que perambulam no campo sem trabalho sobre terras com donos que não usam a terra. Não chegou, ainda, para 52 milhões de brasileiros que, felizmente, graças à luz, hoje têm uma bolsa família, mas que são condenados a viverem de bolsa família.

Ainda não fizemos a luz para milhões de meninas e meninos explorados sexualmente, vítimas da exploração sexual; para mulheres assassinadas pela violência dos maridos, irmãos, parentes ou até de pessoas na rua.

Nós não fizemos ainda a paz de uma distribuição equitativa da renda.

Depois de 50 anos do golpe militar ainda há tanto por fazer!

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