Fábrica de santos

A eleição papal, cercada de mistérios e juramentos de segredo, rezas, missas e orações, traz, em si, alguns contrastes. Para começar, vejamos a condição dos votantes – um mais do que seleto colégio eleitoral formado por apenas 115 cardeais. Com o detalhe de que a idade desses eleitores não pode ultrapassar os 80 anos.

Não é novidade para nenhum cristão o poder político que a Igreja Católica detém nos quatro cantos do Planeta, mobilizando mais de 20% da população da Terra (algo em torno de 1,2 bilhão de pessoas). E o papa é o líder de todos eles, com poder de interceder nos destinos da secular instituição e no resguardo do espírito conservador que embevece grande ala da organização.

Talvez fosse mais produtivo, renovador e, portanto, mais moderno, se a Igreja Católica Apostólica Romana adotasse o princípio da alternância do poder. Ou seja, elegesse o seu papa, que ocuparia o trono até o implemento de idade, que poderia ser o mesmo limite imposto para a escolha do pontífice.

Assim, ele já entraria sabendo o seu limite temporal. Evidentemente, lhe seriam asseguradas, com a aposentadoria compulsória, todas as mordomias inerentes ao cargo, inclusive capela com cripta em que seria guardado o seu corpo adeternum (já que paira dúvida se a matéria subiria às alturas celestiais). Claro que um bom franciscano, se se mantiver fiel às suas convicções, abrirá mão de incorporar tais vantagens a seus hábitos.

Só que tal prática democrática implicaria, inexoravelmente, em criar uma verdadeira fábrica de santos padres vivos. Até agora são apenas dois, Bento XVI e Francisco I, que vem demonstrando a que veio, desde a assunção, abdicando das indumentárias de ouro que lhe ornariam, lembrando o padre santo do Ceará, Cícero Romão Batista, que falava nos rosários de ouro e nos da religião. A concorrência iria ser muito grande na venda de souvenires.

Então, o papa Francisco será o primeiro a quase me convencer. Acho que vou me catolitocar.

 

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