Eleições na Colômbia

Uma capital sem propaganda eleitoral e tomada por dezenas de milhares de soldados e policiais armados até os dentes, fechando todos os acessos aos colégios eleitorais e centros de votação. Este foi o palco do segundo turno das eleições presidenciais colombianas disputadas no domingo (17). Milhares de metralhadoras substituíam as bandeirinhas típicas dos dias de eleições, demonstrando que, apesar do acordo de paz com as Farc e a trégua com o Exército de Libertação Nacional nos dias de votação, era iminente um confronto, que não ocorreu.

Esse ambiente militarizado foi o contexto para o histórico resultado das urnas, em que a direita triunfou com Iván Duque, 41 anos, o mais votado e mais jovem presidente da República desde 1872. Ele obteve 10.372.730 votos (54%), ante 8.034.089 (42%) do esquerdista Gustavo Petro. Os votos em branco somaram 4% num pleito com 52% de participação, menor que no primeiro turno, mas que surpreendeu – o voto não é obrigatório.

Também pela primeira vez na história do país uma mulher se torna vice-presidente. Marta Lucía Ramírez põe fim à hegemonia masculina na política nacional. Gustavo Petro, por sua vez, também leva a esquerda ao nível mais alto de votação de sua história, e ganhando musculatura e representatividade para liderar uma oposição forte. Aqui, o perdedor do segundo turno automaticamente se torna senador.

Uma pergunta pairou no ar: como é possível fazer eleições tão polarizadas e complexas e tentar reverter cenários de votação sem o trabalho de mobilização e boca de urna como no Brasil e em países vizinhos, como o Paraguai, Chile e a Costa Rica (na América Central), também analisados pelo projeto “Tour Eleições das Américas”?
A resposta não é simples. O fato é que a mobilização na dinâmica colombiana, em que o voto não é obrigatório e em que também há descrédito dos políticos, é algo cujo modus operandi ainda é pouco conhecido e praticado no Brasil, e que certamente é uma vantagem estratégica que contarei no livro que está sendo escrito sobre este projeto de marketing político internacional de nossa consultoria Viés Marketing Estratégico.

Na noite do domingo, após a divulgação dos resultados oficiais, Petro fez um duro discurso dizendo que 8 milhões de vozes se levantavam agora para ser a oposição ao governo vitorioso, caso Duque governe com as forças políticas tradicionais e corruptas que o ajudaram ser eleito. Duque foi reconciliador. Disse que o ódio não governará a Colômbia.
Fato é que em um país tomado pela guerra civil por mais de meio século, e que teve como ganhador do prêmio Nobel da Paz em 2016 o atual presidente Juan Manuel Santos, justamente por ter liderado a negociação que chegou ao acordo de paz com as Farc, não vislumbrará tempos de paz caso Duque cumpra o prometido em campanha, de rever e até revogar partes do referido acordo. Apesar da retórica pacifista da vitória, o discurso de ódio foi uma das tônicas que pavimentaram a vitória de Duque.
Será que o mesmo acontecerá em outubro, no Brasil?

No próximo dia 29 o projeto Tour Eleições das Américas embarca para a Cidade do México, capital mexicana, para analisarmos as estratégias e a reta final da campanha presidencial deste incrível país, último a ser visitado antes das eleições no Brasil.

Adriano Mariano
Consultor especialista em marketing político eleitoral
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