Eleições, desastres, fake news e os riscos para o futuro

Após o último crime ambiental da Vale, em Brumadinho, e sua intensa repercussão nos meios de comunicação e redes sociais, um turbilhão de desinformação tomou plataformas como o Facebook e WhatsApp. Infelizmente isso não é novidade, e a facilidade da persuasão de milhões por estes canais escancara as deficiências educacionais e morais brasileiras em sua essência.

Fotos de vítimas desesperadas abraçando bombeiros, mulheres grávidas mortas e sujas de lama, pessoas em meio ao lamaçal, como que se gritassem por socorro, guerra de prints sobre decretos presidenciais, áudios alertando perigo de novas barragens prestes a romper, vídeos de rompimento de barragens e avalanches de lama, teorias da conspiração de ações orquestradas por grupos políticos para desestabilizar o governo: todas fake news.

        Uma das intenções primárias dessas fake news é criar um ambiente pulverizado de sugestões de realidade, que por vezes trata-se de algo real no mundo, no tempo passado, mas irreal no contexto presente e no país de origem em que ocorreu. Mas qual o interesse na criação deste contexto de sugestões de realidade? A facilitação da persuasão pela massificação de novas fake news.

        Criar contextos sugestivos facilita o consumo e a eficiência de novas e posteriores notícias falsas ou descontextualizadas, que favorecem, sobretudo, discursos políticos, e nos dá a sensação de que a campanha eleitoral de 2018 ainda não acabou ou que a de 2020 começou no dia seguinte ao segundo turno do ano passado.

        Preocupado com o desemprego, com o aluguel e com os boletos vencidos, o brasileiro médio, esperançoso (ou não) com o novo governo quer se sentir minimamente relevante, e assim fazer prevalecer a visão de mundo que acredita ser sua. Assim, sem pestanejar, compartilha tudo o que, apenas pelo título, corrobora suas crenças, sem filtros mínimos de julgamento. Não querem saber se é verdade ou mentira. Quer apenas fazer parecer verdade a sua verdade, para ter o que impor, em voz alta, nas discussões familiares ou no boteco.

Para muitos, ter a quem culpar ou endeusar é a única prática atual de poder a qual possuem acesso. Para outros, escolarizados e bem-sucedidos, disseminar fake news é como brincar de Deus: regozijam-se da graça pela ignorância e persuasão alheias e reafirmam suas posições de poder, mantendo assim as situações negociais que garantem seus lucros e contratos ao final do mês. Advogados, engenheiros, empresários e congêneres passam vergonha nas redes, mas encontram ressonância ideológica entre os seus contratantes e, por isso, repassam, sem dó, as fake news diárias.

        Mas esta peste que se alastra pelos grupos de WhatsApp, e que certamente chegou em seu aplicativo durante a leitura deste texto como mais uma notificação de algo inverídico, é uma novidade dos tempos modernos? Não! Há muito se estuda o fenômeno dos discursos persuasivos que disseminam versões da realidade impostas por dadas comunidades interpretativas. Mas, aqui entre nós, há como definir verdade e mentira?

        Friedrich Nietzsche, famoso filósofo alemão falecido em 1900, e que entre outras coisas contribuiu com os estudos da psicanálise, dizia que o conhecimento é uma produção, invenção do homem. “Para Nietzsche, com os nossos instintos percebemos imagens e criamos formas expressas pela linguagem e pelo conceito. A possibilidade de conhecimento a que vivenciamos teria sido uma condição social, política e moral.

        O homem sentindo a necessidade de viver em sociedade tem a crença na verdade também como uma necessidade. Para não ocorrer uma guerra de todos contra todos, é necessário que haja um acordo, uma convenção. Fazendo uso da linguagem é designado o que é verdade e o que é mentira. A verdade seria um mecanismo, um desejo de preservação, uma forma de o homem continuar vivendo. Esse é um momento de escolhas arbitrárias, a verdade se torna uma designação válida de comum acordo, sendo mentiroso quem faz uso de forma não correspondente.

        Para Nietzsche a verdade é resultado de uma metáfora repetida por longos períodos que passou a ser entendida como verdade canonizada. A verdade, para ele, se tratava de metáfora, criações em que os homens se esqueceram que elas assim o são. O homem não ama a verdade por si mesma, ama a possibilidade de conservação, o que há de agradável. Da mesma forma uma mentira que não traga consequências desagradáveis poderá ser bem recebida pelos homens. O que o homem não suporta é o prejuízo, seja com a verdade ou com a mentira.

        Isso reforça a ideia, surpreendente, para muitos, de que não vivemos no mundo real, mas numa realidade virtual criada por nossos próprios símbolos.

        Mas, após parafrasear Nietzsche e textos de seus estudiosos, no que suas afirmações do passado diferem dos dias de hoje? As plataformas e a capacidade da instantaneidade da disseminação de informações. Falam sobre pós-verdade e sobre o direito à opinião própria do indivíduo, da democracia da informação e do fim da verticalização hierárquica de grandes grupos de mídia tradicional, mas se esquecem que a verdade deveria ser definida por fatos e não por intenções particulares. Se esquecem que é preciso, no mínimo, estabelecer acordos sociais minimamente duradouros para que não voltemos aos tempos da barbárie.

        Para muitos que chegaram até aqui, apenas um aviso: os movimentos sociais são cíclicos e redundantes, e os tempos do politicamente correto, hoje em baixa, voltarão com força em alguns anos. Os prints de suas postagens em redes sociais de hoje cobrarão o preço na próxima década e sua reputação digital poderá ser motivo de escárnio público.

        Em tempos de reformas previdenciárias talvez seja bom pensar em manter-se com chances reais de conseguir emprego no futuro. Não deixe sua ignorância ou arrogância serem sua ruína em poucos anos.         Deixe que seu tio, já aposentado, seja o editor chefe das Fake News no grupo do WhatsApp da família. O futuro dele já está garantido, o seu não.

(*) Consultor especialista em marketing político eleitoral

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