Dinheiro na bunda…

Senador Chico Rodrigues (DEM-RR). Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado

Imagine a cena! Pouco mais de 6h da manhã de quarta-feira (14), em Boa Vista. Delegado e agentes da Polícia Federal, acompanhados de representantes da Controladoria Geral da União e da Procuradoria Geral da República chegam à casa de um senador da República. Cumpriam mandado de busca e apreensão. A suspeita é de um desvio de R$ 20 milhões de emendas parlamentares destinados ao combate à covid-19 em Roraima.

A operação foi realizada no mesmo dia em que o Presidente da República disse que daria uma “voadora no pescoço” de quem se envolver em corrupção. Chico Rodrigues, até então vice-líder do governo no Senado, se apresenta aos investigadores de pijama. O grupo já vasculhava os cômodos da mansão e havia encontrado R$ 30 mil, em espécie.

Na sala, o senador pede para ir ao banheiro. Um delegado o acompanha. E percebe um volume suspeito nos fundos de sua cueca. Era dinheiro. Um dos pacotes tinha R$ 15 mil em notas de 200 e estava entre as nádegas de Rodrigues. Algumas notas sujas de fezes. De volta à sala, o alvo entregou outros R$ 2.900 mil escondidos na parte da frente da vestimenta íntima. Em nova revista, a polícia encontrou outros maços de dinheiro. Ao todo, R$ 18.150 no corpo do senador. Constrangimento geral.

… tornozeleira no pé

As imagens da cena triste e desoladora ainda não vieram a público. A PF mantém em um cofre os vídeos que registram a revista feita no senador. Correm em segredo de justiça. Mas a história viralizou tão logo revelada, no final do dia, pela revista Crusoé. Memes pipocaram na Internet. Rodrigues se apressou em publicar nota jurando inocência, evocando até a Justiça Divina.

Não adiantou. Na quinta-feira (15), aliados do Presidente – que em 2018 gravou um vídeo dizendo ter uma “relação estável” com o senador, a quem conhece há mais de 20 anos – pressionaram. Nem a fala de Bolsonaro ao lado do amigo reiterando que está “retomando a moralidade, os princípios e valores da família e as práticas republicanas” o salvaram.

Rodrigues renunciou à vice-liderança do governo. Mas, caso perca o mandato, a família não sairá do poder. O primeiro suplente é seu filho, Pedro Arthur Ferreira Rodrigues (DEM), como revelou em primeira mão o site bsbcapital.com.br.

E a situação se complicou. O ministro do STF, Luís Roberto Barroso, determinou o afastamento do senador por 90 dias. A oposição quer instaurar no Conselho de Ética um processo por quebra de decoro. O DEM pode abrir um procedimento de expulsão do partido. Já a PGR pretende monitorá-lo com tornozeleira eletrônica. Na quinta-feira, o assunto com as #PropinaNaBunda e Polícia Federal foram um dos mais comentados do Twitter.

Flechada em Léo Índio

Por telefone, Rodrigues conversou com o senador Fernando Bezerra (MDB-PE) – outro que recentemente também recebeu a visita da PF. O líder do governo informou que enviaria um ofício ao Planalto pedindo a saída do vice-líder. A desculpa de Rodrigues é de que precisará de tempo para se dedicar à sua defesa. Edição extra do Diário Oficial da União trouxe a decisão horas depois.

Em conversa com aliados, Bolsonaro afirmou que a operação da PF na casa de seu vice-líder não tem relação com o governo e é prova de que não há proteção de ninguém. Segundo ele, a operação é um “é fator de orgulho” para o governo. “Lamento o desvio de recurso, seria bom que não houvesse, porque, afinal de contas, quando você desvia dinheiro da saúde, inocentes morrem. Então, a operação de ontem é fator de orgulho para o meu governo”.

Mas as ligações entre o Presidente e o senador, que remontam à época em que ambos faziam parte do baixo clero na Câmara dos Deputados, também incluem a contratação de um sobrinho de Bolsonaro pelo gabinete de Rodrigues. Leonardo Rodrigues de Jesus, o Léo Índio, que morava com o filho zero três, Carlos, o Carlucho, num apartamento no Rio de Janeiro, recebia salário de R$ 23 mil. Pediu exoneração também na quinta-feira.

Estranho cofrinho

Caberá aos pares de Chico Rodrigues afastar, ou não, o senador do mandato. Apesar de abandonado por Bolsonaro e pela base governista, o ex-vice-líder busca uma saída pela tangente. A estratégia é conseguir um atestado médico de 120 dias. Nesse período, a cadeira seria ocupada pelo filho-suplente.

O objetivo é deixar a poeira baixar, empurrar o processo do Conselho de Ética com a barriga e esperar o fim do ano. Vale ressaltar que Rodrigues é do mesmo partido dos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (RO), e da Câmara, Rodrigo Maia (RJ).

No Senado, está claro que houve um erro de Chico Rodrigues ao tentar esconder o dinheiro. Por outro lado, juridicamente seu processo é reversível. Os R$ 30 mil apreendidos não são grande cifra para o esquema de corrupção brasileiro e poderiam ser creditados, por exemplo, a uma campanha política.

Um colega da base de governo, no entanto, afirma que o caso tornou-se mais complexo: “Ninguém esconde o salário na cueca”. Ainda assim, a tendência na Casa, neste momento, é abafar o caso e equilibrar no mandato Rodrigues e seu estranho cofrinho.

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