Dia do gari: o que comemorar?

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Garis e servidores do SLU farão paralisação no dia 29. Foto: Divulgação

Dia 16 de maio foi comemorado o Dia Nacional do Gari. “A data deve comemorada por quem tem o que comemorar. A realidade do gari é digna de choro, não de festa”, afirma Patrício Ramos, ex-motorista de caminhão de lixo por quatro anos. Os coletores de materiais domésticos, que se recusam a aparecer por medo de represálias, contam que percorrem diariamente, a pé, de 30 Km a 40 Km, “independentemente do horário, do clima ou do dia da semana”, conta um deles.

Desde a terceirização do serviço de limpeza urbana, há 16 anos, no governo Cristovam Buarque – hoje senador pelo PDT-DF – as condições de trabalho pioraram, assim como os salários. O governo paga para a Sustentare, empresa responsável pelo lixo no DF, R$ 68 por tonelada de lixo orgânico e R$ 176 pelo lixo seco. Se multiplicado pelas 750 toneladas de lixo recolhidas diariamente apenas no eixo Planaltina, Sobradinho, Itapoã e Fercal, o faturamento mensal da empresa gira em torno de R$ R$ 2,75 milhões, totalizando, por ano, cerca de R$ 33 milhões.

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Rio de chorume – assim os garis chamam o lixão de sobradinho. A situação é precária. Foto: Allan Gabriel

O gari, por sua vez, recebe um salário de R$ 968 por mês. Alguns sequer têm carteira assinada, ou recebem direitos trabalhistas como FGTS, desde 8 de abril de 2014, quando a Sustentare assumiu o contrato até então regido pela Delta, empresa do contraventor Carlinhos Cachoeira, envolvido no esquema investigado pela Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, deflagrado em 2012.

Antes da terceirização, no eixo norte, havia cinco caminhões de lixo, cada um rodando com quatro garis. Atualmente, mesmo com o crescimento populacional, são apenas quatro caminhões com apenas três garis trabalhando no recolhimento do lixo. Neste meio tempo, nós cidadãos brasilienses, nos tornamos os campeões brasileiros do desperdício: cada habitante gera, em média, 2,4 Kg de lixo por dia.

Outro servidor que não quis se identificar afirma que, atualmente, em Planaltina, Sobradinho, Itapoã e Fercal, apenas três caminhões estão funcionando. Para isto, outros dois viraram almoxarifado, ou seja, as peças foram retiradas para o funcionamento mínimo dos outros veículos. A categoria também não tem plano de saúde, muito menos kits de primeiros socorros dentro dos caminhões ou dos aterros.

“Se um gari se machuca com algum objeto cortante dentro dos sacos de lixo – o que sempre acontece – o trabalho não pode parar. Se não tiver ajuda de nenhum cidadão, o trabalho continua, mesmo com a dificuldade do profissional”, afirma Patrício Ramos.

Caixa preta

A Sustentare, que hoje controla 30% do lixo no DF, está desde 1998 no poder, mas com outro nome. Quando começou, a empresa chamava-se Enterpa Ambiental S.A. e passou para Qualix Serviços Ambientais, em 2002, até se tornar a Sustentare. Em seu site, a empresa justifica que “ocorreram diversos fatores, dentre eles a inadimplência dos municípios, diversas crises financeiras mundiais e a crise argentina (onde se encontrava a matriz do acionista)”.

Na feira de Planatina, garis precisam se juntar para carregar os sacos. Foto: Patrício Ramos
Na feira de Planatina, garis precisam se juntar para carregar os sacos. Foto: Patrício Ramos

Greve a vista

No próximo dia 29, os servidores do Serviço de Limpeza Urbana (SLU) e os funcionários das empresas que terceirizam o lixo no DF vão parar as atividades em protesto contra a falta de efetivo e de estrutura de trabalho na categoria. De acordo com presidente do Sindicato de Limpeza Urbana (Sindlurb-DF), Raimundo Nonato, a paralisação é o estopim de uma situação que está precária. “O governo não liga para o trabalhador. Querem cortar gastos, mas sem diminuir em nada a máquina pública. Só olham para nós quando estamos em greve. Então, assim será”, afirmou.


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