Desigualdade social ao vivo e a cores

Moradores de rua montam acampamento ao redor de um dos principais colégios de Taguatinga Sul

De um lado crianças, apartamentos confortáveis e escolas onde as mensalidades ultrapassam os R$ 900. Do outro, a miséria, condições precárias de higiene, falta de acesso à educação, à cultura e ao lazer. Toda esta cena pode ser vista ao vivo em Taguatinga Sul, ao lado do Colégio Marista. É um retrato da desigualdade social no país. Moradores de rua se instalam, sobrevivem de pequenos favores e esmolas dos transeuntes e, muitas vezes, amedrontam os outros cidadãos.

“Durante o dia são apenas cinco ou seis pessoas. Parecem guardar o lugar para os que vêm à noite. Passam o dia dormindo. Mas, quando escurece, chegam a 20. Ali mesmo na rua eles cozinham, comem, dormem, fazem suas necessidades e até sexo”, conta o comerciante Eliel Xavier, que acompanha a rotina dos moradores de rua que estão vivendo nas redondezas da quadra CSB 9, em Taguatinga Sul.

Os moradores de rua aproveitam a feira que acontece às quartas-feiras na QSE 15 para conseguir frutas e verduras descartadas. Também descolam alguns trocados vigiando. As padarias próximas lhes dão pães velhos e os moradores fazem doações de roupas e pequenos utensílios domésticos.  É comum vê-los consumido bebidas alcoólicas em garrafas, mas drogas, apesar das denúncias dos moradores, nunca foram encontradas entre eles. Ao tentarmos contato com um deles, muito avesso à aproximação,  recebemos uma resposta enfática “dignidade. É só isso que a gente quer”.

Funcionário do Colégio Marista de Taguatinga, José Junior afirma que os moradores de rua nunca causaram grandes problemas. “O máximo que acontece é vermos fazendo suas necessidades ao ar livre, à luz do dia e na frente das crianças. No fundo, sentimos pena”. O desconforto é evidente. Pessoas atravessam a rua para não passar pelo “acampamento” montado pelos desabrigados. Outras escondem bolsas e apressam o passo.

“Nunca encontramos nada de errado com esse grupo. Os moradores constantemente denunciam, pedem para irmos averiguar a situação, mas são sempre conflitos banais”, conta a sargento Thelma, uma das responsáveis pela patrulha no setor. “Alguns desses problemas fogem do âmbito policial para o social. Aquelas pessoas não têm para onde ir. Quem tem que cuidar deste tipo situação é o governo e os assistentes sociais, não a polícia. Atualmente, o policial tem que fazer de tudo, até mesmo coisas que fogem do nosso preparo, diz o sargento Carlos. Ele conta que “até parto de criança já tiveram que fazer aqui”.

“Em vez de comprar ponto quarenta e armas de guerra para a polícia, deveriam investir em educação e saúde. O policial está fazendo um trabalho em vão, enxugando gelo, tentando ajudar e sendo escorraçado pelo governo. A gente prende e a Justiça solta. O cidadão paga imposto e não recebe nada em troca. Queremos ajudar, mas não temos condição de fazer tudo o que a sociedade precisa”, desabafa o militar.

Uma moradora que não quis se identificar conta que já ligou no número 156 e a Secretaria de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda pediu um prazo de vinte dias para tomasse alguma providência em relação ao grupo que está nas proximidades do Marista.

Taguatinga Sul quer atenção

“A polícia passa por aqui toda hora. Enquanto a patrulha está por perto, não acontece nada. Mas assim que viram as costas, o problema reaparece. No caso dos moradores de rua, ninguém mais tem coragem de passar por aqui depois que escurece. Por isso não acontecem mais crimes”, afirma Eduardo Souza, vendedor de uma loja nas proximidades. Eduardo não fala apenas dos desabrigados, como também sobre os pequenos delitos que acontecem na área.

Frequentemente, estudantes dos colégios são vítimas de assaltos. Gustavo Vieira já foi roubado três vezes. “Perdi três celulares e ainda tentaram roubar meu tênis”, conta. O caso é corriqueiro, mas os policiais alertam que não podem curar todos os males da sociedade. “Não adianta a gente prender duas, três vezes o mesmo meliante, voltar no outro dia e encontrar com ele na rua só porque é menor de idade”, reclama o sargento Borges.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública, de janeiro a setembro deste ano foram registradas seis ocorrências na CSB 9. Uma de roubo a pedestre, três furtos a veículos e dois assaltos a residência. A Polícia Civil alega que o registro da ocorrência é essencial para o combate eficaz ao crime.

Saiba Mais           

Segundo dados da ONU, em 2005 o Brasil era a 8º nação mais desigual do mundo. O índice Gini, que mede a desigualdade de renda, divulgou em 2009 que a do Brasil caiu de 0,58 para 0,52 (quanto mais próximo de 1, maior a desigualdade). Porém, este número ainda é gritante

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