Covid-19 no Brasil: ondas conturbadas ou um tsunami?

Dr. Gutemberg Fialho, médico e advogado, presidente da Federação Nacional dos Médicos e do Sindicato dos Médicos do Distrito Federal.

Em Brasília e no Brasil estamos em plena curva ascendente de contaminação pela covid-19. Em outros lugares do mundo, como a China, a Coréia do Sul e a Itália, depois da situação controlada, novos casos voltaram a surgir, e já se teme a segunda onda da pandemia. Por aqui, corremos o risco de não ter o intervalo que estão tendo os países asiáticos e europeus.

Na pandemia da gripe espanhola (1918/19), foram três as ondas: a primeira, considerada mais leve, começou em fevereiro e se concentrou nos países que participaram da 1ª Guerra Mundial basicamente. A terceira foi considerada branda. A mais terrível foi, de longe, a segunda, que percorreu todos os continentes, a partir do segundo semestre de 1918.

Ocorrida logo após a guerra mundial, que custou cerca de 9 milhões de vidas, a gripe espanhola, levou de 20 a 40 milhões – há estudos que chegam a considerar 100 milhões de pessoas. Um volume de perda de vidas humanas que, mais do que a própria guerra, motivou uma crise econômica tão sem precedentes quanto a mortalidade.

Diferente de outros países, com menor território e menos diferenças socioeconômicas, o Brasil entrou numa curva ascendente acentuada e, apesar do tempo para se preparar, ainda desliza: não se conseguiu fazer o isolamento social no nível desejado, não se fez as adequações necessárias nas unidades de saúde, criando áreas de isolamento, não se uniformizaram os protocolos de atendimento para pacientes suspeitos de covid-19 nas unidades de saúde.

Aliado a esses problemas, ainda persiste o baixo índice de testagem da população. Nem a lei distrital que obriga a testagem quinzenal dos profissionais de saúde está sendo cumprida pela Secretaria de Estado de Saúde do DF.

Em plena pandemia, na troca da empresa prestadora de serviços de limpeza nas unidades públicas de saúde, contratou-se um fornecedor que diminuiu a quantidade de trabalhadores da limpeza, que deixa faltar papel toalha e sabão – até água e sabão, produtos básicos para evitar contaminação, chegam a faltar em unidades de saúde na capital da República. Isso é aceitável?

Não bastassem esses problemas de gestão e logística, ainda assistimos à falta de medicação para sedação dos pacientes que precisam ser submetidos ao procedimento de intubação, para serem ligados a aparelhos de suporte respiratório. Sem eles, o sofrimento do paciente é maior, assim como o risco de contaminação do profissional de saúde que executa o procedimento.

Nesse último ponto, o que mais causa indignação é que há indícios fortes de que os medicamentos não estão em falta, mas retidos por distribuidoras que estão agindo em cartel para forçar a elevação dos preços dessas drogas.

É uma prática que, se confirmada, deve ser punida com rigor. A própria Portaria 188, de 2020, pela qual o Ministério da Saúde declarou o estado de emergência sanitária prevê que as autoridades sanitárias podem dispor de serviços e bens de pessoas físicas e jurídicas que sejam necessários para o enfrentamento da pandemia em benefício da saúde popular. É o caso de colocar em campo a Polícia Federal.

Estamos enfrentando, ainda, a primeira onda sob o falso dilema de respeitar as regras de higiene e isolamento social ou fazer festas colocando profissionais de saúde fazendo testes rápidos na porta.

A alternativa às práticas de isolamento social é permitir a contaminação generalizada para chegar à imunização de rebanho (mais de 70% da população), o que teria um ônus incalculável tanto no aspecto moral quanto no econômico.

Como vamos olhar nos olhos uns dos outros se permitirmos, tanto pela conduta pessoal quanto pelo comportamento de grupo, um desperdício de vidas dessa monta?

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