Convite à ilegalidade

Em tempos de franca difusão da informação, viabilizada notadamente pelos avanços da informática (e acessível por força da louvável Lei de Acesso à Informação), espanta e admira o tratamento arcaico que o Estado brasileiro dispensa aos seus clientes: nós, os cidadãos. Equitativamente distribuídos entre cada uma das incontáveis repartições, abundam servidores sem nenhum preparo para atendimento ao público, uns tantos escorados na estabilidade que lhes outorga a lei. Escondem-se estes atrás de rotinas incompreensíveis e, muitas vezes, repugnantes à inteligência.

A burocracia é a mãe do “jeitinho brasileiro”. Não é por outro motivo que as pessoas habituam-se a contrariar as regras, senão pela total impossibilidade de cumprir a excruciante liturgia que lhes impõem a famigerada burocracia e aqueles que habilmente a operam. De fato, uma extensa lista de ilegalidades tem-se, hoje, como moralmente aceitáveis. A par disso, vê-se o aumento crescente da cultura da malandragem, atraentemente apresentada pela mídia televisiva. Uma coisa conduz forçosamente à outra.

Uma constatação paradoxal: os campeões de mal atendimento são os maiores arrecadadores do Estado. Quem já precisou valer-se dos serviços da Receita Federal, Detran e Secretaria da Fazenda sabe do que se está falando. Seguidos de perto pelo INCRA, INSS, cartórios e secretarias de estado, onde quer que se procure atendimento em órgão público há sempre uma certeza: fila, demora e má vontade.

Todos esses fatos, que certamente ninguém ignora, ressaltam a importância e o brilho daqueles trabalhadores, efetivamente preocupados em servir ao público, que, nadando contra a maré da burocracia e sem ganhar nada a mais por isso, esbanjam simpatia, cordialidade e presteza para resolver problemas dos outros. Em um mar de dificuldades, sói aparecer esses anjos que, por se compadecerem da penosa situação dos usuários, esforçam-se mais para solucionar cada caso.

A evolução do Estado e da nação brasileira passa, necessariamente, pela racionalização das rotinas de atendimento ao público e consequente extinção da burocracia. É esse o primeiro passo para o imprescindível salto de legalização que acompanha a trilha para o primeiro mundo.

 

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