Colapso do sistema de saúde do DF pode vir de jatinho

O crescimento achatado da curva de contaminação e óbitos pela covid-19 se tornou, paradoxalmente, um problema para o Governo do Distrito Federal (GDF). Dez entre dez empresários e grande parcela da população passaram a defender o relaxamento das medidas de isolamento social. Muitos chegam a fazer projeções estatísticas por conta própria. 

O fato é que o sistema de saúde local tem conseguido dar vazão à demanda por leitos comuns e de Unidades de Terapia Intensiva (UTI) por pacientes da covid-19. E isso, de certa forma, sustenta os argumentos dos defensores do afrouxamento das rédeas. Segundo a Secretaria de Saúde, o DF tem 6,5 mil leitos hospitalares (4,8 mil, na rede pública, e 1,7 mil, na rede privada), e 500 UTI, sendo 172 preparadas, exclusivamente, para pacientes de covid-19.

Taguacenter, em Taguatinga Norte, já tem movimento “normal” desde o final de abril. Foto: Brasília Capital

Na sexta-feira (8), havia 60 pacientes em UTI no DF. Os dez leitos do HRAN, referência para infectados pelo novo coronavírus, estavam lotados. Caso o aumento de casos se mantenha constante nos próximos 15 dias, as vagas exclusivas para covid-19 na rede pública estarão todas preenchidas. O secretário de Saúde, Francisco Araújo, garante que existem 128 leitos com suporte respiratório em hospitais privados que poderão ser usados por pacientes das unidades públicas. 

Jatinhos

Mas o imponderável pode ser a transferência para Brasília de pacientes de outras unidades da Federação. A cidade já é referência para tratamentos de saúde para estados das Regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste. E não tem sido diferente durante a pandemia.

Embora evitem citar nomes, para preservar a identidade dos pacientes e de suas famílias, profissionais de redes, como a D’Or, que tem quatro unidades em Brasília – Hospital do Coração, Santa Lúcia, Santa Helena e DF Star – e a Sírio-Libanês confirmam que já têm parte de suas UTI ocupadas por pessoas vindas de outros estados com a covid-19.

Privilégio de ricos 

O fenômeno não é exclusividade do DF. A procura por atendimento especializado de alto custo tem levado endinheirados a sair de outras localidades, como Belém do Pará e Fortaleza, entre outros, para buscar socorro em Brasília e em São Paulo. Reportagem da revista Época conta a história de empresários do Pará que, após ignorarem riscos da covid-19, acabaram infectados e voaram para São Paulo em busca de socorro em unidades estreladas, como Albert Einstein e Sirío-Libanês. 

Conforme apurou o repórter Ulisses Campbell, essas viagens em UTI aéreas chegam a custar R$ 120 mil por passageiro. Um dos voos foi pago pela família do empresário Jonas Rodrigues, uma das mais ricas do Pará, proprietária do Grupo Líder, maior rede de supermercados do estado. Ele, de 41 anos, e o pai, de 70, ignoravam as recomendações das autoridades sanitárias para ficar em casa. 

“Não era muito adepto do álcool em gel. Estava trabalhando todos os dias no escritório, sem home office, passeava pela cidade e ia às compras, mesmo sendo dono de uma rede de supermercado. Adoro visitar mercados pelo País afora”, conta. Não deu outra. Ele, o pai e a mãe contraíram covid-19. “Se arrependimento matasse…”, comenta. 

Outro supermercadista paraense, José Santos de Oliveira, de 77 anos, achava que estava imune ao vírus. Atleta, exercitava-se todos os dias em casa e no trabalho e sempre manteve uma alimentação saudável. Ao descumprir as recomendações de distanciamento social, foi infectado pela covid-19 e agonizou com a doença, deixando familiares muito apreensivos. 

O empresário Kleber Ferreira Menezes foi secretário de Transportes do Pará. Quando esteve no cargo, chegou a ser denunciado pelo Ministério Público por improbidade administrativa e crime contra o erário, envolvendo valores na casa dos R$ 20 milhões em contratos com sérias suspeitas de fraudes. Ele refuta: “Não sou ladrão!” Kleber também não dava bola para o coronavírus e levava uma vida como se nada estivesse acontecendo. Sentiu uma tosse enquanto assistia televisão e, em poucos dias, passou perto de morrer.

Carteira aberta para fugir da morte

Para fugir da morte, os ricos de Belém – como o trio de empresários – estão abrindo a carteira, correndo para o aeroporto e embarcando em jatinhos de luxo equipados com UTI. Eles seguem rumo aos melhores hospitais de São Paulo em busca de sobrevivência. Jonas foi socorrido no hospital alemão Oswaldo Cruz. José, no Israelita Albert Einstein, e, Kleber, no Sírio-Libanês. Os três estavam em estado grave quando fizeram a viagem. 

Pelo levantamento da revista Época, são embarcados, diariamente, oito pacientes de covid-19 em jatos com UTI de Belém para outros estados e até para o exterior. A maioria segue para São Paulo. Os paraenses endinheirados não fogem do Pará à toa quando são contaminados pelo coronavírus. A nova doença está devastando a capital numa velocidade assustadora. 

Em duas semanas, os casos de mortes pela covi-19 aumentaram 900% no estado. Até terça-feira (5), o Pará já computava 4.756 casos confirmados e 375 mortes, uma taxa de 4,2 óbitos por 100 mil habitantes. Na média do Brasil, o índice está em 3,7 por 100 mil. 

A maioria dos casos se concentra em Belém, que vive clima de terra arrasada. Todos os hospitais – tanto da rede pública quanto da privada – estão lotados e operando acima do limite. No Hospital Abelardo Santos, a maior referência paraense em coronavírus, há pacientes definhando em macas à espera de uma vaga na UTI. 

Sem capacidade de atender à demanda, Belém vive uma situação inédita no País: Os pacientes estão saindo de casa em busca de atendimento médico, dão de cara na porta e acabam sucumbindo no meio da rua. Com o estado de calamidade e com uma adesão de 45% ao isolamento social na capital, o governo foi obrigado a decretar lockdown (bloqueio total), na quinta-feira (7), em dez municípios da Região Metropolitana. 

Jonas, o dono de mercados, conta que o primeiro a pegar coronavírus na família foi o pai, José Corrêa Rodrigues, de 70 anos. Rapidamente, a doença avançou e sua mãe, Ana Célia, de 67, também foi contaminada. Ele chegou a ligar para alguns hospitais particulares de Belém, mas não havia UTI disponível nem no mais aparelhado da capital. 

“Se não tivéssemos embarcado na UTI aeromédica, meu pai teria morrido, pois essa doença evolui numa rapidez impressionante. Graças a Deus ele apresentou melhoras”, agradece. “Olha, eu assumo que subestimei essa doença. Achava que ela era algo distante. Até que vi meu pai passando mal como nunca vi antes. Aí passei a achar que era coisa de idoso. Foi preciso eu sofrer uma súbita falta de ar para atestar que não dá para brincar com isso”, descreve. Jonas se curou e teve alta hospitalar, mas ficou em São Paulo para cuidar do pai. “Só saio daqui com ele”, diz. 

Kleber achava que ia morrer quando sentiu os piores efeitos da covid-19. Ele chegou a se internar em um hospital particular em Belém, mas correu de lá tão logo conseguiu contratar a UTI aérea. Reservou duas vagas nos apartamentos do Sírio-Libanês. Uma para ele e, outra, para a sua mulher, a cirurgiã plástica Lastênia Menezes, uma das mais requisitadas da capital paraense. A médica também pegou o vírus e adoeceu de covid-19. Apavorada, escapou de Belém junto com o marido na mesma UTI aeromédica.

Tarifas já subiram 30%

Pegar uma UTI aérea de Belém para São Paulo custa caro. De acordo com a revista, numa cotação com três empresas que fazem esse tipo de transporte, o valor é calculado pela quilometragem. Em época de pandemia, as tarifas sofreram aumentos de até 30% por causa da alta demanda e do risco de contaminação a que a tripulação é submetida ao transportar doentes com coronavírus. 

O custo médio para levar um paciente entubado da capital do Pará até São Paulo é cerca de 120 mil reais. Uma das maiores empresas que atuam com pacientes de covid é a Brasil Vida. Na cotação de sábado (2), o transporte de um paciente de Belém para o Sírio-Libanês (um voo de três horas) custaria R$ 118 mil. Na quarta-feira (6), esse valor estava em 125 mil. 

O funcionário encarregado de fazer a cotação, Tiago Pinheiro, justificou o aumento alegando a alta procura e os custos de manter médicos e enfermeiros em casa à disposição 24 horas para uma possível emergência. Algumas empresas de táxi aéreo vêm se recusando a transportar pacientes com covid-19 por causa do risco de contágio. 

Na UTI aeromédica, há todos os equipamentos de uma UTI hospitalar. Todos os voos são feitos com um médico intensivista e um enfermeiro especializado. Se o paciente de covid-19 embarcar respirando e, durante a viagem, enfrentar problemas de respiração, ele é entubado durante a viagem. Caso o estado de saúde se agrave com risco de óbito, o piloto decide se volta para a cidade de origem ou se faz um pouso de emergência no aeroporto mais próximo. 

No valor cobrado pelo transporte aéreo dos doentes estão inclusos os transportes em ambulâncias do hospital de origem, em Belém, até o avião e do avião em solo. No voo é possível levar até dois acompanhantes.

Prefeito recomenda fuga

O prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho (PSDB), também aconselha os ricos a procurarem tratamento fora da cidade que administra, pois a situação no Pará está num nível de colapso nunca visto antes. 

“Aqui, a situação é dramática. A população não deu muita bola para a pandemia. As feiras e os supermercados ficam lotados no fim de semana. Nos bairros mais populares, as pessoas vão para as ruas e fazem aglomerações sem usar máscara. O paraense não acredita no que vê na TV todos os dias. Parte da população também sai de casa porque precisa trabalhar para sobreviver”, avalia. 

Ele diz que entende que os ricos estejam procurando tratamento em outros estados. “Os muito ricos vão para onde tem as melhores tecnologias. Isso é uma evidência de que a rede privada no Pará também saturou”, diz o prefeito.

Construção civil dá exemplo 

Nos estudos do GDF para afrouxamento das regras de contenção da circulação de pessoas, um segmento serve de exemplo: a construção civil. Ela emprega cerca de 200 mil pessoas no DF. Desde o início da pandemia, o setor não interrompeu suas atividades e, até agora, não registrou um só caso de contaminação de seus colaboradores. 

Os diretores da Mirante Incorporações, Jamil Lessa, e da Faenge Construtora, Leonardo Ávila, explicam que as grandes empresas do setor são muito organizadas e, por contarem com profissionais de segurança no trabalho em todas as obras, exigem disciplina rigorosa dos trabalhadores. 

“Nossa empresa tem 21 anos dedicados, exclusivamente, a Brasília e temos um compromisso de responsabilidade com nossos colaboradores”, diz Ávila, que conta com 220 colaboradores. “A construção civil é muito organizada e disciplinada. Adotou rígido protocolo de medidas de combate à covid-19. Os riscos, praticamente, não existem”, completa Lessa, que tem 200 empregados. 

Dentre as regras implantadas nos canteiros de obras, estão o controle da saúde dos trabalhadores, com aferição de temperatura, verificação se alguém tem tosse, coriza, dor de garganta, dificuldade de respirar. Caso seja identificado algum sintoma suspeito, eles são orientados a ficar em casa sem que haja prejuízo econômico. 

Os trabalhadores usam os Equipamentos de Proteção Individual (EPI), como máscaras, luvas, uniformes, botas, etc., e são orientados a fazer higiene pessoal com álcool em gel e lavar as mãos com sabonete com frequência. Todos saem de casa com máscaras. 

Lessa e Ávila discordam apenas num ponto. O diretor da Mirante não é a favor do relaxamento amplo do isolamento. Ele defende o acompanhamento científico, com modelos matemáticos para as tomadas de decisões, e que a volta à normalidade seja feita de forma gradual, por segmentos. 

O diretor da Faenge, por sua vez, embora ressalte que “a vida está acima de tudo”, avalia que outros estabelecimentos podem retomar as atividades, se todos os cuidados necessários forem adotados. “Especialmente porque sabemos que, muitas vezes, o colaborador está mais protegido na empresa do que afastado do trabalho, já que muitos não seguem à risca o isolamento, além de casos em que a habitação do trabalhador pode ter várias pessoas aglomeradas juntas, o que, certamente, é prejudicial”. 

Ávila não defende o retorno à atividade normal, como antes. “Não pode ser assim. O governador Ibaneis foi liberando atividades, gradualmente, e avaliando a curva de avanço da epidemia. Acredito que poderá continuar dessa forma, uma vez que essa solução mostrou bons resultados até agora”.

Comércio e serviço 

O presidente da Federação das Associações Comerciais do DF e Entorno (Faci-DF), Valdeci Machado, acredita que pela curva de crescimento de casos da covid-19 apresentada pela Secretaria de Saúde, o governo tem condições de flexibilizar as regras de isolamento social. Desde que os segmentos do comércio e serviços se comprometa a cumprir todos os protocolos de segurança apresentados pelos órgãos de controle sanitário. 

Uma ação primordial, segundo ele, seria a realização de campanhas de conscientização de toda a população. As ações seriam patrocinadas por entidades, como a própria Faci, a Fibra, a Fecomércio, a CDL, o Sebrae, a Fenatac e a Fapi. Ao todo, elas representam cerca de 170 mil empreendedores e colaboradores. 

Outro cuidado seria o aumento do número de testagens para o novo coronavírus e o rodízio no funcionamento de cada segmento. O comércio de rua abriria das 9h às 17h, os serviços das 11h às 19h e os shoppings das 12h às 20h.

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