Colapso de hoje evidencia o caos habitual na saúde

Desde o início da pandemia da covid-19 temos ouvido falar do “colapso dos sistemas de saúde”. Essa não é, na verdade, uma situação que nos seja desconhecida. O nosso Sistema Único de Saúde (SUS) está colapsado há tempos. Hoje só são mais evidentes a falta de leitos de UTI e de respiradores, em virtude da covid-19, mas diariamente os profissionais de saúde e os pacientes lidam e sofrem com a falta de vagas, de leitos, de medicamentos, de equipamentos e materiais básicos.

De equipamentos de alta tecnologia e caros, como tomógrafos, a simples e baratas luvas cirúrgicas, tudo tem faltado. Entre os medicamentos, não são só os mais caros que faltam. Os antibióticos mais simples e até os analgésicos também somem das farmácias dos hospitais do SUS. E continuam faltando agora, seja pela demora nos processos de aquisição,seja pela escassez da oferta de produtos no mercado que, além de tudo, estão sendo comercializados com preços superfaturados.

Antes até de chegarem ao ponto de intubar pacientes que necessitam de auxílio mecânico para respirar, os médicos estão tendo que lidar com essa deficiência de estoques – até mesmo de equipamentos de proteção individual (EPI) para evitar a própria contaminação.
Uma máscara, a famosa N95, que em situação ideal deveria ser descartada após cada atendimento de paciente com a covid-19, está sendo reaproveitada por 15 dias ou até um mês. A própria intubação, a colocação da cânula que liga o paciente grave ao respirador, nos foi informado, chega a ser feita sem anestésico, por falta de estoques.

Sofrem os pacientes, os médicos e os demais profissionais da saúde. E aí,novamente se esbarra na questão da falta de transparência, que tambémprejudica gestores que agem de boa fé. São eles que vão ser cobrados pelos órgãos de controle por aquisição de insumos com preços superfaturados.

Um sistema de transparência pública em que as informações fossem claras e as situações excepcionais viessem acompanhadas dos devidos esclarecimentos para a realização dessas despesas, apesar do sobrepreço, seria o mínimo a se esperar. Mas isso não existe. A impressão que fica é a de que a falta de informação é proposital.

Os estoques de EPI são um exemplo claro disso. No portal da Secretaria de Saúde do DF, a informação pública se resume a “com estoque” e “sem estoque”. Questionada pelo Sindicato dos Médicos sobre as quantidades desses equipamentos em estoque, a SES-DF enviou documentação que incluiu três memorandos, uma série de justificativas e nenhuma informação sobre o que foi perguntado. Por quê?

A quem interessa a desinformação?Não é difícil corrigir isso. Nossos sistemas informacionais só precisam ser adequados a uma política de transparência real, que depende de nada mais que vontade dos governantes e gestores.

Com muito esforço dos profissionais da saúde e, infelizmente, com muitas perdas, essa crise vi passar. Torcemos e trabalhamos para que o SUS saia fortalecido desse doloroso processo: nossas unidades de saúde, mais bem equipadas; e nossos sistemas de controle e de informação aperfeiçoados e mais ágeis.

A transparência na gestão pública é essencial para chegarmos a esse bom resultado que almejamos. Como diz o ditado, “à mulher de César não basta ser honesta, ela também tem que parecer honesta”.

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