Coitado do Cortado

Os escoteiros do parque do Cortado sofrem o décimo-primeiro crime. Indícios apontam conspiração

Na terça-feira (5), a sede do Grupo Escoteiros de Taguatinga, no Parque do Cortado, sofreu o décimo-primeiro ataque somente neste ano. Foi a quinta invasão nas últimas duas semanas. Os vândalos destruíram móveis, colchões, tampas de bueiros, vasos sanitários, quadros com fotos de turmas anteriores, grades de ferro, vidros, estantes e livros da biblioteca. O prejuízo é incalculável.

José Luiz Hirako, chefe da tropa sênior dos escoteiros, afirma que a sequência de crimes contra a entidade tem caráter depredatório. Nas primeiras vezes, imaginava-se que fossem simplesmente furtos. Porém, após esta série de ações “destrutivas”, essa hipótese está afastada. Embora não tenha como provar, ele suspeita que os crimes foram encomendados por pessoas ou grupos interessadas em construir prédios onde hoje existe a pequena reserva ecológica do Cortado. “Estamos cercados pela especulação imobiliária. Há muita gente importante de olho nessas terras”, diz.

A suspeita do escoteiro converte-se em certeza para o diretor da Federação das Prefeituras e Associações do Parque do Cortado (Fepac), Joadson Lustosa Gama. “Esta reserva ecológica praticamente não existe mais. Há projetos imobiliários para construir dezenas de prédios de apartamentos”, diz. Ele cita como exemplo a construtora MRV, que levantou um condomínio de 12 prédios, num total de 2.865 apartamentos, que os vizinhos apelidaram de “Carandiru”, numa alusão ao velho presídio que existia em São Paulo.

Além da questão ambiental, Joadson Gama prevê um estouro da estrutura urbana no setor. Segundo ele, não foi feito o Relatório de Impacto de Trânsito (RIT) e tampouco o redimensionamento das redes de água, esgoto e energia elétrica da área. “Quando essas mais de 10 mil pessoas estiverem morando nos apartamentos, vai estourar tudo”, alerta.

Em relação ao trânsito, a expectativa é de congestionamentos e tumultos, uma vez que das 2.865 unidades habitacionais, apenas 1.500 têm vagas de garagem. “Portanto, se em cada apartamento tiver um carro, serão mais de 1.300 automóveis na rua, sem ter onde estacionar”.

 

Ataques assustam e afastam os escoteiros

O chefe da tropa Sênior dos escoteiros do Parque do Cortado já constatou uma redução das turmas de garotos. Hirako teme que isto seja um reflexo dos ataques à sede da entidade, uma vez que os pais ficam temerosos de deixar seus filhos na mira dos bandidos. Antes desses acontecimentos, participavam dos Escoteiros de Taguatinga cerca de 60 meninos. Agora, restam pouco mais de vinte.

Segurança – A Secretaria de Segurança Pública do DF não soube responder sobre a criminalidade da região. A Polícia Militar informou que realiza trabalho preventivo, com abordagens e detenções de criminosos e suspeitos.

 

Quem responde pelo parque abandonado?

Ao passar pela reserva abandonada, constata-se que o parque está abandonado. Quatro edificações estão vazias. O portão fica aberto e não existem guardas fazendo a segurança da área. O lixo se espalha pela grama e árvores foram derrubadas. A Administração de Taguatinga informa que a responsabilidade pela manutenção do Parque é do Instituto Brasília Ambiental (Ibram), que até o fechamento desta edição, às 18h de sexta-feira (8) não respondeu aos questionamentos de nossa reportagem.

 

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