Chegou a hora de meu Confiteor(*)

Em todas as Redações em que trabalhei, toda vez que acontecia massacre protagonizado por índios na selva ou qualquer súbita descoberta de ouro na Amazônia, o chefe de reportagem me escalava, com base na minha fama de valentão, o que agora, diante de meu Confiteor, posso afirmar que tal galardão não passava de um grande blefe. Na verdade, em se tratando de selva, no amplo habitat de silvícolas e animais selvagens, incluindo onças famintas e cobras venenosas, não havia repórter mais covarde do que eu.

Quanto a essa autêntica fobia, vale a pena lembrar que eu conhecia de cor e salteado a maioria dos perigos reais da Amazônia, isto com base nos conteúdos das respostas às minhas perguntas aos sertanistas da Funai, com quem cruzei em minhas reportagens, como uma em 2004, ocasião em que os temidos Cintas Largas mataram 29 garimpeiros na localidade de Espigão D´Oeste, em Rondônia, quando conheci o famoso Francisco Meirelles, que chefiava aquela base indígena.

Por exemplo, sabia do risco de acampar para o pernoite em dois lugares: em mato fechado ou à beira de pequenos rios de água corrente e límpida, conhecidos como igarapés, que em tupi-guarani significa “caminho de canoa”. No primeiro caso, é preferível acampar em espaços abertos, as clareiras, porque quando índios brabos pretendem atacar invasores de suas glebas, em geral ao amanhecer, eles usam o tronco das árvores como trincheiras.

No segundo, porque é o local em que as onças escolhem para beber água, quando saem à noite para caçar, após uma longa soneca durante o dia. E mais: índios só matam brancos por vingança, já que ouviram a história de seus ancestrais, que foram exterminados pelos que tinham títulos enganosos de civilizados.

Estranhamente, ao contrário de minha paúra em relação à Amazônia, nunca senti qualquer tipo de medo quando era indicado para cobrir tiroteios cruzados entre bandidos e a polícia, nas favelas do Rio de Janeiro, confrontos que se repetem até hoje; ou quando fui escalado, em 1965, para cobrir a guerrilha de estudantes nas ruas de São Domingos, capital da República Dominicana, que lutavam contra a invasão dos fuzileiros navais norte-americanos –, antagonismos de covardia e valentia que somente o inventor da Psicanálise, Sigmund Freud, pode explicar!

(*)Confissão diante de Deus

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