Brasília tá ficando sessentona…

Em junho de 1959, os primeiros prédios da SQS 106, ficaram prontos.
Foto: Chico Sant’Anna/Arquivo familiar

A contagem regressiva para os 60 anos de Brasília já começou. E, à medida que o cronômetro regride, as primeiras obras erguidas no Plano Piloto, antes mesmo da inauguração, vão se tornando sexagenárias. É o caso do Bloco D, da SQS 106, que completou 60 anos no dia 20 de junho. Foi o primeiro bloco de apartamentos a ficar pronto na Nova Capital, que ficou pronto antes do Palácio da Alvorada, a residência presidencial.

Coube à Kósmos Engenharia S/A a tarefa de erguer os onze blocos da superquadra, custeada pelo Instituto de Assistência Previdenciária dos Comerciários (IAPC). Os irmãos Cláudio, Hélio e Mario Sant’Anna, que deixaram o Rio de Janeiro em 1957, foram os engenheiros responsáveis para implantar o acampamento e dar início aos trabalhos.

Ao lado, o engenheiro Cláudio com sua família no canteiro de obras.
Foto: Chico Sant’Anna/Arquivo familiar

Ainda não havia Lago Paranoá. Não existia Eixão, Eixinho, nem W.3. O Jeep era o único veículo a enfrentar as trilhas na mata. A construção da SQS 106, como de outras quadras naquela época, marca a coragem e o caráter desbravador de profissionais que vieram materializar o sonho de Juscelino Kubitscheck. Não foram muitos os que trocaram o conforto das grandes cidades, como o Rio e São Paulo, para se embrenhar nas matas do Planalto Central. O ex-presidente do Sinduscon-DF, Luiz Carlos Botelho Ferreira, certa vez me revelou que não chegavam a 100 os engenheiros e arquitetos que vieram pra Brasília antes de 1960.

Acampamentos eram minicidades

Além de ter a responsabilidade de erguer os 11 prédios, construtoras daquela época eram obrigadas a assegurar o suporte necessário aos seus operários. Serviços que numa cidade constituída podem ser alcançados em todos os bairros. Alimentação, moradia e saúde eram garantidas dentro dos canteiros de obra.

É por isso que Brasília é dotada até hoje de acampamentos. Alguns eram erguidos fora das obras, como os que existiram na Vila Planalto. E outros, dentro do próprio canteiro de obras, que foi o caso da SQS 106.

Foto: Chico Sant’Anna/Arquivo familiar

Engenheiros, arquitetos, apontadores, milhares de operários viviam dentro das obras. Isto exigia a existência de cantinas para alimentar, três vezes ao dia, milhares de pessoas. Um canteiro de obra era uma minicidade.

Afinal, em 1957, ainda não existiam cidades-satélites no DF. Os povoados mais próximos eram Brazlândia e Formosa, que ficavam em território goiano e foram, à época, incorporados ao território do Distrito Federal.
Taguatinga só surgiu em meados de 1958. Sobradinho é de maio de 1960 e o Gama é de outubro. Fora os canteiros, só existia a Cidade Livre – hoje Núcleo Bandeirante, que era o centro de compras de todos que aqui viviam –, e a Candangolândia, que também dava seus primeiros passos.

Os desbravadores irmãos Sant’Anna

Cláudio Sant’Anna, ao lado de JK: o pioneiro foi o primeiro presidente do Sindicado da Construção Civil do DF.
Foto: Chico Sant’Anna/Arquivo familiar

Em 1º de outubro de 1957, a Lei 3.273 determinou o início das obras de construção da Nova Capital. Dois meses depois chegavam por essas bandas os irmãos Sant’Anna.Com pouco mais de 30 anos de idade, casado com a professora de idiomas Norma Sant’Anna e quatro filhos (o caçula com seis meses de idade era eu), Cláudio Sant’Anna, veio para Brasília e nunca mais voltou para o Rio de Janeiro. Seu pioneirismo lhe rendeu o registro número 4 no Conselho Regional de Engenharia, além de ter sido fundador e primeiro presidente do Sinduscon-DF.

Se construir hoje uma superquadra já é um desafio, imagine naquela época, quando não havia nenhum suporte de logística! Nos canteiros de obra não havia energia elétrica, nem água encanada, nem esgoto.

Gerador de eletricidade e poços abasteciam as necessidades da obra e de seus profissionais. Insumos para a construção tinham que ser tirados nas redondezas pelas construtoras. Brita vinha das pedreiras e a areia dos rios goianos.

Família Sant’Anna.
Foto: Chico Sant’Anna/Arquivo familiar

Em alguns caso, as próprias construtoras se responsabilizavam para extrair, elas mesmas, os minerais necessários, operando dragas e britadeiras. Cimento? Não havia naquela época as duas fábricas na Fercal. Era necessário ir até Anápolis, a 150 Km, por de estrada de terra.

A cidade goiana era um verdadeiro entreposto de material de construção, provenientes de São Paulo e Minas Gerais, na maioria dos casos. Quem chegasse primeiro garantiria seu abastecimento de ferro, cimento, cerâmicas, pregos, madeira, enfim, tudo que hoje basta pegar um telefone e solicitar.

Ah, também não havia telefone. O Departamento de Telefonia Urbana e Interurbana da Novacap (DTUI) ainda estava nascendo.

Bloco D da SQS 106 expõe epopeia

Suely Nakle De Roure (direita).

Parte dessa epopeia vai ser exposta no salão de festas do Bloco D da SQS 106, prédio que já guarda uma placa descerrada por JK atestando ser o primeiro edifício residencial da cidade, e agora abrigará uma galeria de fotos históricas. A iniciativa da síndica Suely Nakle De Roure perpetuará a coragem e a determinação de uma geração que não apenas sonhou com um Brasil melhor e mais igual, mas botou a mão na massa para que isso ocorresse.

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