Brasília, capital dos bicos II

Foto: Tony Winston/Agência Brasília

Com o desemprego em alta, a saída para muitos é viver de bicos, ou do subemprego, como gostam de chamar os economistas. A taxa de subutilização da força de trabalho, aferida pelo IBGE, cresceu no quarto trimestre de 2019 e chegou a 20,2%. Embora tenha caído no DF em relação aos meses anteriores, ainda está acima de alguns estados.

Os que apresentaram as menores taxas foram Santa Catarina (10,2%), Mato Grosso (12,9%) e Rio Grande do Sul (14,6%). As maiores taxas foram observadas no Piauí (42%), na Bahia (39%) e no Maranhão (38,2%).
Nesse quadro, as mulheres sofrem mais do que os homens. Na força de trabalho brasiliense, a taxa de subemprego para o sexo feminino foi de 23,5%. Já os homens, 16,9%. Por grupo etário, os percentuais de subutilização, no DF, foram menores na faixa etária de 40 a 59 anos.

Sem carteira, sem CNPJ – A taxa de informalidade média na capital federal – trabalhadores urbanos e domésticos sem carteira assinada, empregador sem CNPJ, conta própria sem CNPJ e trabalhador familiar auxiliar – em Brasília chegou a 29,6%, superando as taxas dos 3 anos anteriores.

São cerca de 350 mil pessoas nessas condições. Esses números refletem de volta no desempenho do GDF e do governo federal. Sem carteira assinada, não há recolhimento da Previdência e o trabalhador vê a aposentadoria ainda mais distante. Sem CNPJ, o GDF não recolhe ICMS nem ISS, e o caixa fica curto, gerando o círculo vicioso do cobertor curto.

Os números da informalidade do quarto trimestre de 2019, em Brasília, quando comparados com os do mesmo trimestre de 2018, último mês do governo Rollemberg, tiveram aumentos de 15 mil pessoas (12,8%) e 9 mil pessoas (15,2%) nos números de empregados no setor privado sem carteira e de trabalhadores domésticos sem carteira respectivamente.

Varjão, (49,68%); Itapoã, (44,90%) e Estrutural (44,78%) são as Regiões Administrativas com os maiores percentuais de trabalhadores informais em relação ao universo do total de trabalhadores. Além de não estarem protegidos pelos benefícios sociais, os informais (média de R$ 2.591) ganham bem menos do que os que têm carteira assinada (média de R$ 4.097,87).

Bolsa família – Reflexo desse quadro crítico pode ser visto na fila do Bolsa Família, que no Brasil já acumula mais de um milhão de pessoas. Em Brasília, embora não aponte os números, o Sindicato dos Servidores da Assistência Social e Cultural do GDF (Sindsasc) diz que é crescente o volume de pedidos do benefício, que não vêm sendo liberados pelo governo Bolsonaro.

Também é sentido no bolso das pessoas. Em janeiro, segundo a Federação do Comércio do Distrito Federal (Fecomércio-DF), o total de famílias com algum tipo de dívida passou de 791 mil, em dezembro de 2019, para 806.375.

“Significa que 81,1% das famílias brasilienses estavam endividadas em janeiro, ante 79,7% em dezembro. O montante de famílias com contas em atraso também cresceu: Passou de 114.322 mil famílias para 123.841 mil, em janeiro. Na comparação com o ano passado, o endividamento também está mais alto. Em janeiro de 2019, o percentual de endividados era de 79,2%”, diz o informe da entidade.

Compras públicas – O somatório desses indicadores demonstra que é urgente a adoção de uma política econômica que assegure a retomada do desenvolvimento local. Haja visto que essa retomada, dificilmente, dar-se-á pelo consumo família, pois o desemprego campeia e as pessoas não têm poupança.

Dessa forma, uma política de investimentos públicos se faz fundamental. As mais recentes iniciativas do GDF, voltadas à construção de túneis e viadutos, podem não ser suficientes para mudar o cenário.

O GDF deve rever seus critérios de compras públicas – como a recente aquisição de uniformes escolares – e adotar mecanismos que fomentem a economia local. Do contrário, poderá ver se avolumar os índices da precariedade social na capital da República.

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