Brasil na Série D da covid-19

Se houvesse um campeonato da pandemia da covid-19, o Brasil certamente estaria disputando a Série D, com enorme chance de rebaixamento. Tendo fechado o mês de junho com mais de 1,4 milhão de infectados e cerca de 60 mil mortos(desconsiderando a subnotificação), o Brasil desponta como o segundo maior do mundo em termos de contaminados e de óbitos.

E a tragédia não se dá somente na saúde pública, mas também na atividade econômica, devendo o país fechar o ano com o pior desempenho entre as 30 maiores economias do planeta.

Se o desastre na economia tem um pai, Jair Bolsonaro, que desde o início subestimou a doença, há vários padrinhos – governadores e prefeitos – quepromovem um verdadeiro festival de improvisações, alternando flexibilização e fechamento, lockdownsseguidos de “libera geral”. O mais grave é que,literalmente, desprezaram as experiências bem-sucedidas de outros países. 

No hipotético campeonato, estariam na Série A os países que desde o início adotaram uma estratégia clara de combate à pandemia, controlaram o surto, tiveram pouquíssimos óbitos, e mitigaram e rapidamente superaram os danos na economia (Austrália, China, Noruega, Taiwan, Coréia do Sul, Cuba). 

Na série B, os países que contiveram o surto (embora com número significativo de óbitos) e retomaram as atividades produtivas gradativamente(Alemanha, Portugal, Argentina, Israel). 

Na Série C os que inicialmente subestimaram a pandemia, mas em seguida promoveram o lockdown,e só retomaram as atividades econômicas com uma vigorosa queda na curva de contaminação e no número de mortes (Espanha, Itália, França, Holanda e Bélgica). 

Por fim, na Série D, os que erraram tudo desde o início, subestimando a pandemia, causaram enorme número de mortos, e continuam errando,promovendo a retomada das atividades ainda com a curva de contaminação ascendente (Brasil, EUA, México, Peru, Reino Unido e Suécia).

O fato é que o abre/fecha não só prolonga a contaminação e, consequentemente, os casos de internação e óbitos, mas também os efeitos negativos na atividade econômica. E oprolongamento da pandemia só agrava a situação das empresas, especialmente das micro e pequenas (84% tentaram financiamento e não conseguiram), pois Bolsonaro e Guedes reservaram suas atenções para os bancos e as grandes corporações.

De outro lado, 1,5 milhão de trabalhadores formais perderam seus empregos e milhões de informais, autônomos, perderam suas fontes de rendimentos e não têm tido acesso ao auxílio emergencial de 600 reais.

Que este pesadelo seja breve!

(*) Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável (UnB), ex-presidente da Codeplan e do Conselho Federal de Economia

Deixe um comentário