“Bolsonero” ganha estátua no Pantanal

Monumento foi erguido pelo Greenpeace para identificar o presidente com o imperador que incendiou Roma. Foto: Diego Baravelli /Greenpeace

O imperador romano Nero se destacou na história por ordenar o incêndio em Roma com o propósito de construir um complexo palaciano ali, já que o Senado havia indeferido o pedido de desapropriação para a obra. Da mitologia aos tempos atuais, ativistas do Greenpeace quiseram associar a imagem do tirano romano com a de Jair Bolsonaro.

Na semana passada, eles ergueram uma estátua de quatro metros de altura do presidente do Brasil vestido em trajes de Nero numa área atingida pelas queimadas no Pantanal. O monumento logo foi apelidado de “Bolsonero”. Além disso, veio acompanhado da seguinte frase: “Pátria queimada, Brasil”, Segundo o grupo, para protestar contra o desmonte sistemático da política ambiental brasileira do atual governo.

De acordo com dados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama/Prevfogo), em parceria com o Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (LASA/UFRJ), o fogo no Pantanal já consumiu mais de 3,9 milhões de hectares do bioma.

“Desde o início do governo ele tem demonstrado que não tem um política ambiental. As queimadas deste ano estão completamente fora de controle. Isso é consequência do desmatamento”, frisa o porta-voz do Greenpeace no Brasil, Rômulo Batista.

Os dados do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) corroboram com a declaração do ativista. A primeira semana de outubro foi o que se pode chamar de devastadora para três biomas brasileiros. De 1º a 7 de outubro, houve um aumento de 772% nos focos de calor no Pantanal, 505% no Cerrado e 199% na Amazônia, em relação ao mesmo período do ano passado. É o maior índice já registrado no período no Pantanal e no Cerrado, e o segundo maior na Amazônia desde 2010.

A tendência de aquecimento já era notada no mês anterior. Somente em setembro, houve um aumento de 180,7% dos focos de calor no Pantanal e 60,6% na Amazônia, quando comparados ao mesmo período do ano passado. E isso não é um fato isolado – comparando com a série histórica desde 1998 para setembro, as queimadas foram as mais severas para o Pantanal e o segundo pior ano para Amazônia desde 2010.

Os dados deste ano mostram que entre janeiro e os primeiros 7 dias de outubro, houve um aumento de 18% no número de focos de calor registrados na Amazônia e 215% nos focos registrados no Pantanal, em relação ao mesmo período em 2019.

“Pátria queimada, Brasil”. Foto: Christian Braga / Greenpeace

Organização criticou governos de esquerda

Atos como este, focados na figura de um presidente da República, são corriqueiro entre as ações do Greenpeace no Brasil. Como forma de pressionar a presidente Dilma Rousseff (PT) e o Senado a não aprovarem o Código Florestal, um balão inflável foi erguido na Praça dos Três Poderes com o formato de uma motosserra, que trazia as frases: “Senado, desliga essa Motosserra”, de um lado, e “Dilma, desliga essa Motosserra”, de outro.

Em 2006, durante sua visita a Londres, o presidente Lula deparou com um pequeno grupo de cerca de 30 integrantes do Greenpeace que vestiam a camisa da Seleção Brasileira – em alusão ao fato de que uma área de floresta equivalente a um campo de futebol é devastada a cada dez segundos na Amazônia – para protestar contra o que consideravam devastação da Amazônia no governo Lula, enquanto o presidente passava de carruagem fechada rumo ao palácio de Buckingham.

Os manifestantes levavam, ainda, cartazes com a inscrição “God Save the Amazon” (parafraseando o “God save the Queen”, do hino britânico) e “Deus Proteja a Amazônia”. “Nossa organização é independente. Não recebe ajuda de governo nenhum e nem de partido. Por isso, temos a liberdade de sempre criticar os governos e os presidentes”, reforça Rômulo Batista.

Ricardo Sales nas cordas

Tão logo os incêndios se alastraram pelo Pantanal mato-grossense, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Sales, sobrevoou a área devastada pelo fogo em 3 de outubro (sábado). Ele criticou as questões ideológicas para o uso de retardantes de fogo, como é usado nos Estados Unidos e Canadá, e que o governo não tardou em responder.

O ministro culpou o clima extremo e o baixo nível do rio Paraguai como dificultadores para se combater os incêndios florestais. Ele defendeu, ainda, o uso do fogo controlado e da pecuária, apoiando a ideia de ter uma brigada de incêndio permanente entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

O Senado tem pressionado o ministro Ricardo Sales a dar explicações sobre as ações desempenhadas pelo governo federal para combater as queimadas no Pantanal. O requerimento para que o ministro vá ao parlamento foi aprovado no dia 2 de outubro, na comissão criada para acompanhar os serviços das tropas federais na reserva ambiental.

A autora do requerimento é a senadora Simone Tebet (MDB-MS). Ela pretende ouvir de Sales informações sobre as multas ambientais aplicadas pelo Ibama nos últimos cinco anos em cada bioma brasileiro. O ministro tem 30 dias para responder.

(*) Especial para o Brasília Capital

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