Barrados

Corporativismo do CFM dificulta vinda de médios cubanos

Faltam médicos no Brasil. A afirmação é do ministro da Saúde, Alexandre Padilha. A diferença na quantidade de médicos nos grandes centros e no interior do país está cada dia maior. Nem mesmo o Programa de Valorização do Profissional da Atenção Básica (Provab), que dá incentivos aos médicos que aceitam trabalhar no interior, tem surtido efeito.

A saída proposta pelo Ministério da Saúde é a mesma já usada por países como Inglaterra, França, Canadá, Austrália, dentre outros: a contratação de médicos estrangeiros. No caso do Brasil, a maioria dos profissionais poderia vir de Cuba, onde existem 25 faculdades de medicina, que formaram mais de 11 mil médicos em 2012, entre cubanos e estrangeiros.

A ilha de Fidel é o maior aliado do governo brasileiro na pretensão de “importar” médicos. Números oficiais do Conselho Federal de Medicina (CFM) indicam que 70% dos médicos brasileiros concentram-se nas regiões Sudeste e Sul do país. Em geral, eles trabalham nas grandes cidades. Os seis mil médicos cubanos viriam ao Brasil para trabalhar no atendimento inicial aos pacientes e no interior do país.

O CFM, porém, está receoso com a nova proposta. “Se esta intenção fosse séria, o governo traria médicos preparados para fazer cirurgias, trabalhar em UTIs e atender casos de alta complexidade. Não há médicos pela metade, e é isso que está sendo proposto. Se o médico “importado” sem revalidação receber um caso grave, cruzará os braços”, ressaltou o presidente do Conselho, Roberto Luiz d’Avila, durante o Fórum de Ensino Médico, em Brasília.

 Formação

Medicina é o curso mais caro do mercado, além de ser o mais concorrido nos vestibulares. Cursar em uma faculdade particular pode exigir, além de alguns semestres de cursinho, R$4.507,94 mensais para frequentar as aulas em uma universidade como a Católica de Brasília. Um projeto de lei do senador Cristovam Buarque (PDT-DF) propõe que os médicos formados por meio de custeio com recursos públicos, tanto em instituições públicas como privadas, deverão realizar dois anos de exercício social da profissão. O projeto tramita na Comissão de Assuntos Sociais do Senado.

Segundo pesquisa encomendada pelo Conselho, a média nacional é de 1,95 médico para cada mil habitantes. No Distrito Federal, esse número chega a 4,02 médicos por mil habitantes, seguido pelo Rio de Janeiro (3,57), São Paulo (2,58) e Rio Grande do Sul (2,31). No extremo oposto, estados como Amapá, Pará e Maranhão registram menos de um médico para mil habitantes.

A oferta de R$ 8 mil mensais aos médicos que fossem trabalhar no interior por meio do programa “mais médicos”, do Provab, foi aceita por apenas 4 mil doutores. Número insuficiente para atender às demandas da população. Os médicos alegam que falta estrutura para o trabalho e não é só o salário que importa.

 Cubanos

Os médicos cubanos são acostumados a trabalhar com muito menos recursos, além de o país exportar médicos para 70 países diferentes. É no mínimo uma grande arrogância achar que os médicos cubanos não estão preparados para praticar medicina básica no Brasil.

A taxa de aprovação dos médicos cubanos em outros países é altíssima, diferentemente do que acontece no Brasil. Em Portugal, na última leva, 60 médicos cubanos prestaram exame e 44 foram aprovados (73,3%). Em 2012, de 182 médicos cubanos inscritos no Brasil, apenas 20 foram aprovados (10,9%). Esta alta taxa de rejeição está fazendo com que o governo brasileiro repense o método de avaliação dos médicos estrangeiros, o que é altamente rechaçado pelo CRM.

Médico brasileiro que atende em Portugal, Pedro Saraiva relatou no blog do Nassif algumas curiosidades sobre o Revalida, prova aplicada aos que médicos formados no exterior e que pretendem atuar no Brasil.

“Um rapaz, se não me engano brasileiro, tinha feito seu curso de medicina na Bolívia e havia retornado ao país para exercer a profissão. Como era de se esperar, ele foi submetido ao exame Revalida. A prova prática foi na enfermaria em que eu estava estagiando. Por isso pude acompanhar parte da avaliação. Dois fatos me chamaram a atenção: o primeiro é a grande má vontade dos componentes da banca com o candidato; outro fato foi o tipo de perguntas que fizeram, bem mais difíceis do que aquelas que nos faziam nas nossas provam. Soube, dias depois, que o rapaz tinha sido reprovado”, lamenta.

Já o presidente da Federação Nacional dos Médicos, Geraldo Ferreira Filho, destacou em audiência que a reprovação dos médicos formados do exterior no Revalida chegou a 95% em alguns anos. Segundo ele, isso mostra que o processo de avaliação dos médicos formados no exterior deve ser rigoroso, sob pena de colocar em risco a saúde e a vida da população.

Consenso

O ponto de encontro entre as autoridades envolvidas no assunto parece ser mesmo na aplicação da prova. O Revalida, mesmo que reformulado, não será extinto. Cogita-se, também, que os médicos trabalhem apenas no atendimento aos pacientes, não sendo autorizado a eles a realização de cirurgias e exames específicos.

O modelo, segundo Alexandre Padilha, é o do Canadá. Lá, os profissionais são submetidos à prova de acordo com sua intenção. Uma para atendimento, outra para cirurgia e assim sucessivamente. O ministro da Educação, Aloizio Mercadante, também garantiu que os médicos estrangeiros que virão trabalhar no interior do Brasil passarão por exames criteriosos para exercer a profissão.

Por Gabriel Pontes

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