Babel? Bobagem!

De um conhecido jornalista nordestino , acabo de ler esta pérola: “E um médico estrangeiro vai saber, no contato com os cearenses, o que é ferida braba… curuba… impin­gem… gastura…?”.

Ora! Desde o tempo das cavernas, prova irrefutável e contínua da inteligên­cia dos humanos tem sido sua capacidade de decifrar, não em séculos, mas em dias, e até horas, a lingua­gem do estranho. Não fos­se assim, jamais teria ha­vido História. Para quem duvida, aí vai um pequeno exemplo, próximo de nos­sas casas e dos nossos dias.

No início do século XX, milhares de japoneses vie­ram ganhar a vida no Bra­sil. Não conheciam uma palavra de português. Mas, semanas após a chega­da, quase todos já sabiam que “pegador” era ashia­to; “apressar-se”, o mesmo que isogu; “pernilongo”, aquilo que eles chamavam de ka; “melancia”, a fruta que conheciam como sui­ka… e assim por diante. O mesmo aconteceu aos ita­lianos, que não demora­ram a entender o gauchês (nas versões brasileira, uruguaia e argentina), con­dição indispensável para, em tempo razoavelmente curto, chegarem à condi­ção de prósperos pecuaris­tas e bem-sucedidos produ­tores de vinho.

Não há melhor método para se aprender uma lín­gua – sem exclusão de suas expressões populares – do que mergulhar alguns me­ses, ou mesmo semanas, na cultura que a criou e a utili­za no cotidiano.

Filho de carpinteiro, nascido em uma pequena cidade do sertão cearen­se, não cheguei a comple­tar sequer o curso primá­rio. No entanto, quando, em 1945, nos mudamos pa­ra a vizinha Crateús, em poucos meses, com auxí­lio de uma velha gramáti­ca, aprendi francês bastan­te para tentar a leitura dos livros franceses existentes na pequena biblioteca pú­blica da Prefeitura, embo­ra ainda fosse incapaz de me comunicar na língua do velho Anatole.

Fui para Fortaleza em 1949, e aprendi inglês com jovens colegas jornalistas que haviam frequentado o IBEU. E quando vim para o Rio de Janeiro, dez anos mais tarde, logo assumi a tarefa de traduzir contos policiais e ficções científi­cas para revistas dos Diá­rios Associados.

Editor do suplemento li­terário do Jornal do Brasil durante dezesseis anos (de 1977 a 1993), fui várias ve­zes à Alemanha, a fim de escrever sobre a Feira do Livro de Frankfurt. Na pri­meira viagem, meu ale­mão não enchia uma xíca­ra de café; mas depois de dez dias viajando pelo pais, descobri que me tornara capaz de ler pelo menos os títulos e as chamadas de primeira página de alguns jornais…

Foi assim que, mais tar­de, pude me tornar um ho­nesto tradutor de livros de ficção, ensaios, História e Filosofia. Quarenta e três, até agora. Do espanhol, do francês, do inglês, sem es­quecer alguns contos do italiano; do italiano mes­mo, não de algum dos seus inumeráveis dialetos.

A experiência, a minha como a de todos os povos, de todas as épocas, lembra que a Torre de Babel é ape­nas um muro no meio do caminho. Um murinho, na­da intransponível… Exis­tem, contudo, pelo menos dois obstáculos à possibili­dade de nos expressarmos em uma língua estrangei­ra. Ou pelo menos (como em boa medida ocorre co­migo) de ler o que nela se escreveu e se escreve:

– Primeiro obstáculo: a preguiça.

– Segundo: o preconcei­to em relação àquele que não fala o nosso inigualá­vel, insubstituível, maravi­lhoso idioma!…

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