Aumento de óbitos evitáveis: incompetência ou desprezo pela vida?

O resultado da falta de planejamento para suprir a demanda natural do SUS é que, segundo dados da Polícia Civil, o número de mortes em casa aumentou 43,5% no Distrito Federal: óbitos por causas diversas que teriam sido evitados se o atendimento estivesse regular no Sistema Público de Saúde – como deveria ser. Até setembro deste ano, 739 moradores da capital faleceram em suas residências. No mesmo período do ano passado, foram 515. 

Há dois meses, o Sindicato dos Médicos do DF denunciava: “pacientes sem covid-19 esperam fim da pandemia para tratar outras doenças”. Nos desabafos, uma paciente, moradora de Ceilândia, chegou a dizer que a sensação, ao precisar do SUS, “era como se as outras doenças tivessem sumido” diante do novo coronavírus.

Mas não sumiram. A falta de gestão (ou incapacidade) salta aos olhos. O impacto da pandemia sobre o já sobrecarregado SUS era evidente. Ainda assim, mesmo com o número alarmante de mortes em outros países devido à doença, não houve planejamento aqui para quando chegasse a nossa vez de enfrentar o novo coronavírus.

Em uma situação assim, além de seguir as recomendações da OMS, tanto o fortalecimento da Vigilância em Saúde quanto da Atenção Primária certamente teriam evitado inúmeras internações e mortes devido à covid-19. Assim como a separação de fluxos em UPA’s, UBS’s e hospitais para pacientes com patologias não covid-19 e com covid-19. Com essa divisão, a população não teria medo de procurar a saúde pública e sair contaminada por pessoas com o novo coronavírus.

Em fevereiro, antes de a pandemia chegar ao DF com toda sua força, verificamos, em Ceilândia, que a Unidade Básica de Saúde (UBS 4) funciona como UBS e Policlínica. E assim continua: não há, em diversos locais, fluxos diferentes para pacientes com patologias não covid-19 e de covid-19. Isso obviamente aumenta o medo da população e a desassistência.

Em 2016, lembro que denunciávamos um salto de 15,24% no número de mortes ocorridas em hospitais públicos do DF de um ano para o outro, saindo de 5.734 para 6.608 falecimentos. À época, salientei que essa estatística era resultado da falta de planejamento, investimento e organização do SUS, o que se convertia em desabastecimento de medicamentos, equipamentos e insumos e a falta de conservação de equipamentos existentes.

Quatro anos depois, faço a mesma avaliação, com o agravante de a gestão não ter se preparado nem para enfrentar a pandemia da covid-19 e nem para atender a demanda natural do SUS. Diante desse fato, acredito, enquanto cidadão, que é preciso seguir com a coragem de lutar pelo ideal. O desafio aqui, ano após ano, é não nos acomodarmos diante da banalização, em sucessivos governos, de mortes evitáveis.

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