Ato de Contrição e cogitação do “Reencontro”

Recebi um choque na tarde de sexta-feira (2), quando minha mulher Lêda  me trouxe a notícia do falecimento de Lindberg Cury, aos 82 anos, nove menos do que os meus 91 outonos de longevidade. De repente me dei conta de que precisava fazer o meu Ato de Contrição, antes de embarcar para o Oriente Eterno, o que pode ocorrer sem aviso prévio. Como não sou católico e sim presbiteriano, não posso sair em busca de um Confessionário, no qual poderia relatar meus pecados a um padre do outro lado da tela, recebendo a penitência a cumprir.

Diante desse impasse, só me restou o exame de autoconsciência, a fim de catalogar os inúmeros erros contra os meus semelhantes e só então perdoar a mim mesmo. E eis que cumpri a tarefa através do doloroso mergulho que minha filha Fernanda, psicóloga, classifica como catarse. Segundo ela, que acumula a função de médium espírita, já estou devidamente preparado para o “Reencontro” com as pessoas amadas que partiram antes de mim na viagem sem volta.

Se isso vai ser possível, que bom que reencontrarei a figura de meu pai, que me deixou aos 11 anos de idade, mas imprimiu em mim a base que seria o alicerce de minha vida, desde então: “Não minta, meu filho, porque a mentira provoca danos irreparáveis!”; e tantos outros ensinamentos que ele mesmo exemplificava com seus atos. Idem felicidade inaudita ao reencontrar minha mãe, que mal conheci e só então receber as carícias maternas, das quais ainda sou carente em vida.

Nesse rol do feliz Reencontro, há uma lista enorme de amigos, entre os quais Lindberg Cury, goiano de Anápolis, mas brasiliense pioneiro de alma e coração. Ele deixou um vazio enorme no âmbito de sua linda família de quatro filhos e oito netos, agora sob o comando da esposa e fiel companheira Marta Cury. Esse vácuo é extensivo a Brasília, cidade à qual concedeu inúmeras benesses. Foi reeleito nada menos de 17 anos à presidência da Associação Comercial do DF, administrando-a com dedicação e transformando-a em palco democrático para enfrentar a ditadura militar à época. E mais: exerceu seu mandato de senador com brilhantismo e honestidade, aliás comportamentos raros nos dias de hoje no Parlamento nacional.

E assim, Brasília, o Brasil e todos nós, brasilienses natos ou adotados (eu), ficamos órfãos com a partida de Lindberg Cury para o céu do Oriente Eterno.

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