Ataque de Saudosismo

De repente, me dou conta que devo ser o jornalista mais antigo do Brasil, ainda rabiscando textos neste hebdomadário e no também tablóide Tribuna Imobiliária. Ao dar uma olhadela no passado, lembro quando comecei a trabalhar como “foca” (repórter novato) num pasquim paulistano, depois de fugir de um Seminário presbiteriano, no qual pretendia salvar almas pregando inspirados sermões, claro que com a indispensável ajuda do Espírito Santo. No que diz respeito à soma do tempo que passou, tomei um susto ao contar nos dedos o início dessa paixonite aguda: 1950!

Desde então, já se passaram exatos 62 anos de fidelidade absoluta a uma linda profissão que, pelo visto, está em extinção -, pelo menos neste País onde os donos de jornais venderam a alma ao Diabo. Modalidade agonizante, sim, embora continue apaixonante. Eis porque não me sinto cansado, apesar do peso de tantas décadas de labor. Até muito ao contrário, tenho a impressão que ainda não passei dos 30, o que às vezes me dá uma ziquizira existencial ao me olhar no espelho. A juventude já faz tempo que abandonou as linhas de meu rosto, deixando em seu lugar inconvenientes rugas, como os meandros de um velho rio.

A propósito, querido leitor, você sabia que se conhece a idade dos rios por seus meandros ou curvas?

Neste ataque de Saudosismo, procuro escapar pela tangente, agarrando-me na compensação de que tive uma mocidade movida a sonhos, da mesma forma como outros jovens de minha geração que optaram pelo encantamento das Redações de jornais. Entre esses devaneios, o meu era escrever livros numa mesa de bar da Place Saint Michelle, no Quartier Latin, em Paris, seguindo os passos de Hemingway. E talvez ouvir a voz maviosa de Verlaine declamando versos de  Rimbaud; ou ter a sorte de cruzar no Champs Élysées com Baudelaire, poeta considerado devasso, pendurado nos seios de uma bela mulata chamada Jeanne Duval, sua amante preferida.

Se esses projetos não se concretizaram, garanto que foram por motivos alheios à minha vontade, aliás como tantas outras frustrações, entre as quais de não ter sido lembrado para concorrer ao Prêmio Nobel de Literatura. Gracinhas à parte, o importante (acreditem) é que quem sonha de olhos abertos não envelhece nunca! E eu continuo sonhando…

 Por Fernando Pinto

 

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