“Às vezes nunca sei…”

…se “às vezes” leva crase”. É com esse belíssimo verso da música As vezes nunca, do Engenheiros do Hawaii, que começo este artigo! E eu te pergunto: “às vezes” leva crase?

Primeiramente, coloque definitivamente algo na sua cabeça: português não é matemática! Esta é uma ciência exata, ao passo que aquela, humana! Quanto mais você buscar respostas do tipo 2+2=4 sobre a nossa língua, maiores serão as chances de você não entender nada! A língua portuguesa possui lógica, mas não baseada em respostas únicas! Para a pergunta que fiz anteriormente, respondo: depende!

Em uma sentença do tipo “às vezes, durmo bem”, o emprego do sinal indicativo de crase é obrigatório! Isso ocorre porque “às vezes” funciona como uma locução adverbial de tempo dotada de núcleo feminino. A norma padrão da língua escrita determina que, nesses casos, a fim de se evitar qualquer ambiguidade, empregar o acento grave é de bom tom! É a mesma razão pela qual há crase em “você tem o meu à disposição” ou “quero pagar pelo lanche à vista”.

Todavia a língua não se resume a locuções ou adjuntos adverbiais. Veja as seguintes construções:

  • As vezes em que viajei para o sul foram maravilhosas!
  • Eu sei as vezes em que fui ao hospital.

Agora, faço o seguinte questionamento: como você vai empregar o acento grave nas construções 1 e 2, se, nos dois casos, a expressão “as vezes” desempenha as funções de sujeito e de objeto direto, respectivamente? Você nota que, agora, estamos falando de funções sintáticas não preposicionadas, de acordo com a nossa gramática? Em outras palavras: a lógica é nítida, mas a resposta não é única!

Precisamos estar sempre dispostos a otimizar o nosso aprendizado de língua portuguesa e, principalmente, abertos à possibilidade de refletir sobre ela! Os que mais entendem sobre o nosso vernáculo não são os que mais decoram regras, e sim os que mais raciocinam acerca do funcionamento das estruturas linguísticas! Os caminhos do idioma não são obscuros, desde que você pegue a estrada certa!

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