As quadras que eu amo

Conheci no Rio de Janeiro um brilhante repórter da revista O Cruzeiro que conseguiu a façanha de amar três mulheres ao mesmo tempo, com as quais casou, fato este que sempre me baratinou: como ele conseguia cumprir os seus deveres conjugais de varão? O que esse colega jamais imaginou é que, anos mais tarde, as referidas esposas compareceriam em seu velório numa capela do cemitério do Caju, acompanhadas dos respectivos filhos. A inaudita presença do trio de viúvas provocou um constrangimento geral a nosotros, os amigos circunstantes, menos ao distinto defunto, que jazia indiferente, ali deitado em seu florido caixão. E mais: àquela altura, absolutamente isento de ser enquadrado na faixa dos “crimes contra a vida em sociedade”, a bigamia, o que lhe daria até dois anos de cadeia, segundo o Código Penal Brasileiro.

Foi relembrando esse quadro cômico-dramático (juro que aconteceu de verdade) que me senti também um polígamo impune, em vida, ao constatar que continuo amando de paixão, simultaneamente, nada menos de cinco quadras residenciais de Brasília. Podem me taxar de leviano, mas sou réu confesso de amar tão intensamente assim, se é que isso tem qualquer coisa a ver com o crime de bigamia. E tudo começou por volta de 1982, quando cheguei aqui com minha família para fincar raízes, isto depois de vindas e idas profissionais – a mais marcante a cobertura da Inauguração de Brasília, em 21 de abril de 1960, naquela noite luminosa quando Juscelino chorou; e eu também. Com a diferença que as lágrimas dele ficaram plasmadas na História.

Depois de uma semana instalados no Torre Palace Hotel (a melhor comida árabe da cidade), a primeira residência da nossa família foi na 203 Norte, a seguir na 407 da mesma SQN; nas 304, 303 e 113, estas três na SQS. E tem amigos em cada uma delas, com quem continuo me relacionando, cujos nomes omito para não esquecer de citar (e magoar) algumas dessas pessoas queridas. A maioria compareceu recentemente ao lindo casamento de minha filha Fernanda, inclusive suas amiguinhas de infância, hoje doutoras e cada vez mais bonitas.

Continuo acreditando, como no início da letra da canção de Milton Nascimento: “amigo é coisa pra se guardar embaixo de sete chaves, dentro do coração…”

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