As cidades também morrem

            Não se trata de mera força de expressão, mas a cidade gaúcha de Santa Maria também morreu na madrugada de domingo, 27 de janeiro, juntamente com seus 236 jovens (infelizmente, número que deve aumentar diante de 119 feridos, alguns graves). E enquanto transcorre o doloroso velório coletivo, prossegue o empurra-empurra para apurar a quem cabe a culpa. No patamar mais alto, o prefeito Cézar Schirmer afirmou que a responsabilidade de fiscalizar a boate era do Corpo de Bombeiros; o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, retrucou: “bombeiros não autorizam o funcionamento de nada. Quem dá o alvará é a Prefeitura”.
Por sua vez, o delegado da polícia civil da cidade, Marcelo Arigony, pediu a prisão de dois sócios da boate e de dois músicos da banda Gurizada Fandangueira, apontados como responsáveis pelos fogos de artifício que atingiram o teto sobre o palco forrado de isopor e espuma. Convém assinalar que esta providência policial não aliviou a dor dos parentes e amigos das vítimas.

            Repetindo ocorrências similares anteriores, mas de menor porte, já que a de Santa Maria foi a segunda maior do Brasil, a verdade é que a consequência final do sinistro se baseia num emaranhado de causas, entre essas, a inércia das autoridades. Basta dizer que a boate Kiss estava sem o alvará de funcionamento, vencido desde agosto do ano passado. E onde se encontravam os fiscais municipais para conferir o número de pessoas presentes, já que a lotação era de 691 frequentadores e naquela noite  totalizavam cerca de 1.300?

            Só para lembrar o primeiro maior acidente no gênero do País, ocorrido há meio século (que cobri como repórter), tal qual Santa Maria, a cidade de Niterói também morreu ao enterrar seus 503 mortos. Tudo aconteceu na tarde de domingo, 17 de dezembro de 1961, com labaredas que começaram na lona externa de um circo e provocaram pânico entre as pessoas que lotavam as arquibancadas, matando, em sua maioria, crianças, que foram pisoteadas. Desta feita, pelo menos os três marginais que atearam fogo (por vingança) foram presos e condenados.

            O importante agora é desativar as milhares de armadilhas instaladas em casas noturnas de todo o país, incluindo Brasília. E que a chocante tragédia de Santa Maria sirva de lição, não se repetindo nunca mais, como alertou a presidente Dilma Roussef, emocionada, dirigindo-se aos prefeitos no recente encontro no Palácio do Planalto.     


Por Fernando Pinto

Da Redação

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