Após referendo, Escócia rejeita independência e permanece no Reino Unido

A Escócia rejeitou a independência no referendo de quinta-feira (18/9) e optou por permanecer no Reino Unido após a promessa de concessão de mais poderes ao governo regional, um desfecho recebido com alívio por Londres e pela União Europeia. As autoridades europeias não esconderam o alívio com o resultado, que também diminui um pouco a pressão do governo espanhol, contrário a uma consulta sobre a independência da Catalunha. No total, 55,3% dos escoceses votaram contra a independência do Reino Unido e 44,70% a favor, segundo a apuração final.

O “não” recebeu quase 400 mil votos a mais – 2.001.926 de votos contra 1.617.989 -, em um referendo que teve uma taxa de participação recorde de 84,59% dos 4,3 milhões de eleitores registrados. “Estou decepcionado, mas as coisas continuarão como estavam. Não vai mudar a minha vida”, disse à AFP Danny Trench, de 23 anos, a caminho do trabalho em Edimburgo. A diferença foi maior do que apontavam as pesquisas, o que confirma a tese da “maioria silenciosa” contra a independência que era citada pelos unionistas ante o fervor da campanha independentista.

“Chegou o momento para nosso Reino Unido unir-se e seguir adiante”, disse o primeiro-ministro britânico conservador, David Cameron, em um discurso à nação diante da residência oficial de Downing Street. “O debate ficou resolvido por uma geração e, talvez, como disse Alex Salmond, por toda a vida”, completou. “O povo escocês falou e sua decisão é clara”, afirmou o líder conservador. “Decidiu manter a integridade de nossas quatro nações (Escócia, Gales, Irlanda do Norte e Inglaterra) e, assim como milhões de pessoas, estou feliz por isto”, celebrou Cameron.

Cameron defendeu a decisão de conceder à Escócia a possibilidade do referendo porque o Partido Nacional Escocês (SNP) venceu as eleições de 2011 com maioria absoluta e tinha a independência em seu programa. “Amo o Reino Unido, mas também a democracia”, disse Cameron. Alguns minutos antes, Alex Salmond, chefe do Governo regional, líder dos independentistas e do partido SNP, reconheceu a derrota. “É importante dizer que nosso referendo foi um processo acordado e consensual, e a Escócia decidiu por maioria que neste momento não será um país independente”, afirmou Salmond em Edimburgo.

“Aceito o veredicto das urnas e peço a toda a Escócia que faça o mesmo e aceite o veredicto democrático do povo”, completou, emocionado, o homem para quem o referendo de independência representava o combate de toda uma vida e que liderou uma campanha apaixonada a favor do ‘sim’ nos últimos meses. Onipresente nas ruas, na imprensa, nos comícios e nas redes sociais, Salmond, de 59 anos, lutou até o último momento para tentar obter a vitória do ‘sim’ à independência. Os independentistas esperavam uma ampla vitória em Glasgow, a cidade escocesa de maior população, onde o ‘sim’ triunfou, mas apenas por 54,5% contra 46,5%.

Mais poderes, mas para todos

O debate sobre o fim ou não de 307 anos de história comum provocou paixões. O temor do impacto econômico da separação, alimentado pela transferência a Londres da sede social de bancos como o Royal Bank of Scotland às vésperas do referendo ou a possibilidade de não poder utilizar a libra, acabou freando a opção pela independência. “Não acredito que os escoceses querem estar no Reino Unido, mas tiveram medo de coisas como a mudança da moeda. E não os culpo. Sou brasileira e mudar de moeda é horrível, você tem uma quantidade de dinheiro e no dia seguinte tem outra”, disse Andreia Rodrigues, de 38 anos, funcionária em uma cafeteria.

Na véspera do referendo, Cameron, seu aliado governamental liberal-democrata Nick Clegg e o líder da oposição trabalhista Ed Miliband se comprometeram por escrito a iniciar o processo de ampliação de poderes já nesta sexta-feira. “Vamos honrar este compromisso”, disse Cameron nesta sexta-feira, que anunciou, no entanto, que qualquer “tratamento novo e justo para a Escócia” será ampliado para a Irlanda do Norte e Gales, assim como para a Inglaterra, a única das quatro regiões constituintes do Reino Unido sem Parlamento nem governo autônomo próprio.

Salmond recordou os compromissos dos três grandes partidos da Inglaterra, que prometeram mais poderes ao Parlamento regional escocês, especialmente na área fiscal, caso a Escócia votasse contra a independência. “Os partidos unionistas se comprometeram no final da campanha a dar mais poderes à Escócia. E a Escócia espera que estes compromissos sejam cumpridos rapidamente”, declarou Salmond, que, apesar de não ter conquistado a independência para a região, conseguirá uma autonomia reforçada. “Os escoceses conseguirão a maioria das coisas de um Estado independente, sem os riscos”, prevê Tony Travers, professor do Departamento de Governança da London School of Economics.

Sobre a Inglaterra, Travers disse que o desafio será adivinhar “o que o Reino Unido pode dar”. Desde que o ex-primeiro-ministro trabalhista britânico Gordon Brown entrou na campanha, depois de quatro anos afastado da política, o unionismo conseguiu conter a hemorragia de votos que chegou a deixar os independentistas por alguns dias em primeiro lugar nas pesquisas. Na quarta-feira, Brown pediu que os simpatizantes do ‘não’ permanecessem de cabeça erguida e não permitissem aos nacionalistas monopolizar o sentimento escocês, em um discurso em Glasgow muito elogiado nas redes sociais. “Lutamos duas Guerras Mundiais juntos. Não há um cemitério na Europa no qual não estejam lado a lado um escocês, um galês, um inglês e um irlandês. Quando lutaram, nunca perguntaram de onde vinham”, disse.

Europa respira aliviada

A Europa respira aliviada com o resultado na Escócia, que poderia provocar um contágio a outras regiões do bloco. “Confesso que o resultado me alivia”, disse o presidente do Parlamento Europeu, o alemão Martin Schulz. O resultado do referendo escocês é “bom para uma Europa unida, aberta e forte”, afirmou em um comunicado o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso.

A vitória da independência teria representado uma grande pressão para o governo espanhol de Mariano Rajoy, ante as intenções da Catalunha de celebrar uma consulta separatista em 9 de novembro. O Parlamento autônomo da Catalunha pretende aprovar uma lei que abra o caminho para a consulta, considerada ilegal pelo governo central.

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