Anjos não sabem nadar

Há 24 anos, escrevi reportagem na então revista Manchete sobre

acidentes fatais com crianças, que ocorriam com maior frequência em
Brasília: mortes por afogamento em piscinas. A pauta veio a reboque
de um fato que consternou toda a cidade: o inusitado afogamento do
netinho do senador Humberto Lucena, à época presidente do Senado
Federal. Inusitado e à beira do incrível, sim, porque tudo aconteceu
numa manhã ensolarada de domingo, quando a família Lucena se refrescava
em chaises longues em volta da piscina, no momento exato em que o
menino mergulhou, diante de todos, atraído pela transparência da água azul. E naquela fração de segundo ninguém viu. Minutos
depois, o corpinho boiava, inerte.

Lamentavelmente, esses óbitos continuam acontecendo não só na Capital Federal, onde a maioria das casas e conjuntos habitacionais não abre
mão do conforto óbvio de uma piscina, mas também em outros estados. E
como os números não mentem jamais, eis aqui uma estatística que
provoca arrepios na lombada de vovós atentos, como no meu caso:
segundo a Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático, quatro crianças
de até dez anos de idade morrem afogadas no Brasil, por dia! Nesse
total, incluem-se acidentes escabrosos, como o de Goiânia, em julho do
ano passado: dois bebês caíram na piscina de um berçário. Só um
escapou.
A sugestão lógica que podemos dar aos pais brasilienses seria:
coloquem seus filhos numa academia de natação.  Anjos sem asas não
sabem nadar, mas aprendem rápido. Porém, nem essa cautela resolve o
problema. No final de novembro de 2012, um menino de três anos faleceu
por afogamento em São Paulo, numa escola particular de natação. Claro
que as duas funcionárias do berçário de Goiânia e o professor e a
assistente da escola de natação foram indiciados por homicídio
culposo, cumprindo processos em liberdade.

É o caso de indagar: como não se fez ainda uma lei federal, com
regras de segurança para o uso de piscinas, mesmo já tendo sido uma
dessas vítimas o neto de um senador da República? Será que a
especialidade desses parlamentares é de apenas legislar em causa
própria, a exemplo dos vergonhosos 14º e 15º salários que continuam
recebendo até hoje, ilegalmente? Que Deus proteja as crianças do Brasil!

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