Afinal, que Rei sou eu?

Se o marechal Deodoro da Fonseca ressuscitasse de repente, com certeza ficaria frustrado ao constatar que de nada adiantou proclamar a República montado em seu cavalo branco e de espada em riste, na histórica manhã de 15 de novembro de 1889. E com a essencial diferença de que naquele tempo só existia um Rei de sangue azul, D. Pedro II, enquanto hoje há mais monarcas no Brasil do que os 10 dedos das mãos.

É Rei disso, é Rei daquilo outro. Basta conquistar o público em alguma atividade para ser coroado e reverenciado por seus súditos genuflexos, com absoluta legitimidade por se tratar de uma decisão espontânea e unânime do povão.

Parodiando o aforismo de que “cada povo tem o governo que merece”, sem dúvida que o nosso país faz jus a essa enxurrada de reizinhos. No extenso rol, dois deles permanecem em pleno mandato: o Rei Pelé e o Rei Roberto Carlos.    Registre-se que ambos já são septuagenários, porém cada vez mais firmes em seus respectivos tronos.

No reinado da alegria, a vaga é do gorducho Rei Momo, que só reina nos dias de carnaval.  No que se refere aos saudosos, o mais lembrado é o sanfoneiro Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Nessa lista de finados, aparece o jornalista Assis Chateaubriand, que mereceu uma biografia com o título de Rei do Brasil.

Por herança histórica relacionada ao primeiro Rei de verdade que aportou na Bahia e que se chamava D. João VI, os soteropolitanos (baianos nascidos em Salvador) têm por hábito se dirigir aos interlocutores turistas com o tratamento de “Meu Rei”, detalhe da rica gíria local. Quem chega de fora sente-se importante ao ouvir os agradecimentos de “Obrigado, meu Rei!”, somados aos cumprimentos de “Bom dia, meu Rei!”  ou “Boa noite, meu Rei!”

Mas, como a capital baiana está entre as dez cidades mais violentas do País, só resta saber se os bandidos soteropolitanos, com aquela delicadeza própria de um povo hospitaleiro, costumam anunciar antes de um assalto: “Desculpe, meu  Rei, mas passe a sua grana pra cá!”.

Se sou contra a instituição das realezas nacionais? Francamente, na condição de plebeu assumido, prefiro responder com a letra do samba, sucesso na década de 1940:

Que Rei sou eu / Sem reinado e sem coroa / Sem castelo e sem Rainha / Afinal, que Rei sou eu?”.

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