Administrador 3 em 1

Fernando Fernandes: delegado de carreira, político por acaso e administrador por lance do destino. Foto: Thiago Oliveira

Segundo distrital mais votado em 2018 (29.420 votos), perdendo apenas para o candidato da Igreja Universal do Reino de Deus, Martins Machado, do PRB (29.457 votos), Fernando Fernandes (Pros) só exerceu o mandado no dia 1º de janeiro. No dia 2, após a escolha da Mesa Diretora e das comissões permanentes, a Câmara Legislativa entrou em recesso, e dia 3 ele aceitou o convite do governador Ibaneis Rocha (MDB) para assumir a Administração de Ceilândia. Desde então, Fernandes adotou estilo próprio, conciliando a agenda de administrador com a profissão de delegado de polícia que exerceu até o final do ano passado. Sempre acompanhado por uma equipe de agentes de segurança, ele fez mais de vinte prisões nesses dois meses. “Já aviso a galera que gosta de praticar o mal que continuo sendo policial”, diz ele, falando sério em tom de brincadeira. Nesta entrevista ao Brasília Capital, Fernandes admite ser um político três em um: além de administrar a mais populosa cidade do DF e de prender bandidos ainda encontra tempo para acompanhar os trabalhos da Câmara e fiscalizar a atuação de sua suplente, Telma Rufino (Pros).

O senhor foi eleito deputado mas não vem exercendo o mandato. Não seria melhor ter sido candidato a administrador? – Já me fizeram essa pergunta com relação à eleição direta para administradores regionais, caso venha a ocorrer. Mas eu esclareço. Assumi o mandato de deputado distrital, participei das primeiras votações na Mesa Diretora, das comissões permanentes, e logo em seguida, a partir de 2 de janeiro, a Câmara Legislativa entrou em recesso. No dia 3, eu recebi um telefonema do governador me convidando a assumir a Administração da Ceilândia, uma vez que ele estava com dificuldades de escolher um nome com consenso para a cidade.

Veja a entrevista

O senhor é a favor de eleição direta para administrador? Se sim, seria candidato a administrador ou a deputado? – A deputado. Com relação à eleição direta, creio que não vinga. No meu entendimento, é inconstitucional. Creio que deverá ocorrer uma escolha com participação popular, como uma lista tríplice ou sêxtupla, que é a ideia do Ibaneis.

Desde que assumiu, o senhor imprimiu ritmo próprio na administração, com um olho na Câmara Legislativa e sem abandonar o trabalho como policial. O senhor foi eleito deputado mas não vem exercendo o mandato. Não seria melhor ter sido candidato a administrador? – Já me fizeram essa pergunta com relação à eleição direta para administradores regionais, caso venha a ocorrer. Mas eu esclareço. Assumi o mandato de deputado distrital, participei das primeiras votações na Mesa Diretora, das comissões permanentes, e logo em seguida, a partir de 2 de janeiro, a Câmara Legislativa entrou em recesso. No dia 3, eu recebi um telefonema do governador me convidando a assumir a Administração da Ceilândia, uma vez que ele estava com dificuldades de escolher um nome com consenso para a cidade.

O senhor é a favor de eleição direta para administrador? Se sim, seria candidato a administrador ou a deputado? – A deputado. Com relação à eleição direta, creio que não vinga. No meu entendimento, é inconstitucional. Creio que deverá ocorrer uma escolha com participação popular, como uma lista tríplice ou sêxtupla, que é a ideia do Ibaneis.

Desde que assumiu, o senhor imprimiu ritmo próprio na administração, com um olho na Câmara Legislativa e sem abandonar o trabalho como policial. O senhor é um político 3 em 1? – Na verdade, sou delegado de carreira; político (deputado distrital) por um acaso); e administrador regional por um lance do destino, desses que a gente não espera.

Mas o senhor é filho de Ceilândia. Administrar sua cidade deve ser um orgulho… – Sou nascido, criado e morador da Ceilândia. Estudei na cidade. Meu primeiro emprego público foi no Hospital Regional. Tudo isso que fez com que o governador acreditasse em meu nome como alguém qualificado para assumir a administração. Com relação a essas abordagens do trabalho policial, nesses dois meses nós realizamos pelo menos 20 prisões de traficantes de drogas em Ceilândia. São usuários e traficantes que agiam dentro ou nos arredores de escolas. Fomos convidados por diretores para conhecer as instalações das escolas e, lá chegando, nos deparamos com usuários de maconha, craque e cocaína agindo livremente. Eu, como delegado de polícia, não poderia fechar os olhos para aquela situação. Mesmo porque a lei permite que, mesmo afastado, posso atuar. Continuo andando armado, com algemas. Já aviso para a galera que gosta de praticar o mal que eu continuo sendo delegado de polícia (risos).

Ceilândia recebeu esta semana duas obras importantes, o que mostra prestígio junto ao governador. O que representam para a cidade as praças recém-reformadas? – Uma delas, no P Norte, é a praça do Ferrock, onde acontecem importantes festivais. Estava abandonada, servindo de refúgio para traficantes, usuários de drogas e moradores de rua. Nessa revitalização, recuperamos a iluminação pública de qualidade.

“Mesmo afastado atuar. Continuo andando armado”. Foto: Thiago Oliveira

Os recursos foram de emendas parlamentares? – Sim. Dos deputados Reginaldo Veras, Chico Vigilante e Wasny de Roure.

Qual o total gasto nessa praça? – R$ 850 mil. Uma excelente obra.

O que tem lá de equipamentos públicos? – Um anfiteatro, com concha acústica; quadra poliesportiva, parquinho para crianças, academia para idosos e um espaço de lazer para convivência das famílias.

O senhor criou um esquema de segurança para evitar depredações, uma vez que, muitas vezes, o grande vilão de espaços assim é a própria população? – Nós estabelecemos uma parceria com a 19ª DP, que é a delegacia que eu chefiava até o final do ano passado. Além disso, estamos tentando instalar, nos postes daquela praça, câmeras de segurança ligadas diretamente à delegacia e à administração.

E a Polícia Militar? – É nossa grande parceira. Mas, tem uma desvantagem em relação à Civil. A PM anda com viaturas caracterizadas, facilmente identificadas à distância. O que faz com que o marginal fuja. Já a Polícia Civil trabalha com carros descaracterizados e policiais à paisana.

A outra praça foi construída com uma vaquinha da comunidade. Foi o senhor que liderou essa ação com servidores da administração? – Isso mesmo. Nós temos um projeto chamado Mãos Solidárias, em parceria com o sistema socioeducativo, com os reeducandos da Papuda, onde eles entram com a mão de obra e a administração e o empresariado ajudam com o material para recuperação de espaços. Essa pracinha da EQNO 4/6, fica ao lado de uma escola pública. Estava depredada, o alambrado destruído, parque sem areia. Aí resolvemos agir. Aproveitamos a mão de obra dos detentos, conhecidos como funapeiros, conseguimos algum material com empresários locais. Faltavam R$ 1.200 em material. Nós, da administração, juntamos os amigos e chefes e levantamos esse dinheiro. Conseguimos finalizar com sucesso aquela obra.

Foi uma doação espontânea por parte dos servidores? – Totalmente espontânea. Os servidores quando viram as coisas acontecendo com transparência se dispuseram a ajudar.

O delegado também entrou na vaquinha? – Fui o primeiro a fazer a contribuição, para estimular.

Sobre política:

“Ibaneis faz um trabalho semelhante ao nosso, guardadas as proporções”, compara Fernando Fernandes. Foto: Thiago Oliveira

O governador também está tentando imprimir um ritmo próprio de trabalho. Tem mantido um contato mais próximo com a população, sindicatos, etc. Como o senhor vê esse novo tempo? – Vejo com muito bons olhos. Diferentemente do governo anterior, Ibaneis tenta se aproximar da comunidade. Faz um trabalho semelhante ao nosso, guardadas as proporções. Vai até às cidades do DF, verifica a situação de determinado lugar, conversa com as categorias e sindicatos. Isso, por exemplo, já gerou uma sinalização positiva em relação à equiparação salarial da Polícia Civil com a Federal. É um grande avanço.

E com a Câmara Legislativa? Qual a relação do governador? – Quando estive lá, a relação era muito boa. Ele esteve lá, inclusive, antes de iniciar o mandato. É uma parceria que conta com proatividade de ambos os lados. Ele demonstra sempre que quer aproximar-se dos deputados. Nunca impôs nenhum tipo empecilho, demonstrando pelo menos uma boa intenção, uma “política de boa vizinhança”.

Surgem especulações de que ele pode, inclusive, ser candidato a presidente da República. Na sua opinião, isso seria viável? – Olha, a gente até brinca com ele. É claro que ele sempre nega isso. Mas, uma pessoa que sai de 2% e chega ao final com mais de 70% dos votos válidos, não seria impossível se lançar à presidência. Depende do cenário político, é claro. Mas de repente ele pode triunfar numa disputa nacional. Eu, particularmente, torço para que ele tente a reeleição.

Dentro da sua estratégia pessoal, qual a sua perspectiva política para o próximo pleito? – A gente procura dar um passo de cada vez. Nossa perspectiva é retornar à Câmara Legislativa no segundo semestre. Aprender o trabalho de deputado. E pensamos, num primeiro momento, disputar uma reeleição em 2022.

Como ficam suas emendas parlamentares fora do exercício do mandato? Ceilândia não está sendo prejudicada? – Nós temos um bom diálogo com nossa suplente, Telma Rufino. Ela tem atendido nossos pleitos.

Mas a base dela é Águas Claras… – A gente sempre brinca que o deputado não pode olhar para uma só base, mas, sim, para o DF como um todo. A minha visão é distribuir emendas e projetos, especialmente na área de educação. Eu vejo a educação como uma forma de prevenção à criminalidade. Especialmente as escolas em tempo integral, ou no novo modelo de gestão compartilhada.

Mas o fato de não enviar recursos para a base que o elegeu não pode ser perigoso? – Talvez tenha sido esse fato que tenha pesado na hora de deixar, momentaneamente, a cadeira de distrital para assumir a administração. Afinal, tive mais de 23 mil votos em Ceilândia. Reconheço que tenho uma certa dívida com aquele eleitorado.

Sol Nascente e Pôr Do Sol são considerados, juntos, a maior favela da América Latina. Como resolver um problema tão grave? O governador propôs criar novas administrações regionais, para desmembrar essas áreas de Ceilândia. O senhor é favorável? – Eu já conversei com o Ibaneis sobre o tema. Sou contra a criação de novas Regiões Administrativas. Creio que a Administração de Ceilândia consegue administrar as regiões, desde que tenha recursos materiais e humanos próprios. O que falta nesses locais é a presença do Estado.

Isso vem desde a concepção desses locais, não é? – Sim, porque são áreas invadidas. Cresceram por vários anos sem nenhum tipo de controle, sem freio. Agora, as delegacias 19ª e 23ª, estão fiscalizando diuturnamente, sete dias por semana, inclusive no carnaval, a fim de evitar a expansão dessa região. Caso contrário, daqui a pouco Águas Lindas emenda com Sol Nascente e Santo Antônio do Descoberto com o Pôr do Sol.

Gostaria de deixar uma mensagem específica para os ceilandenses? Gostaria de pedir aos moradores de Ceilândia que continuem confiando no nosso trabalho e que nos ajudem em relação ao lixo e entulho. O maior problema de Ceilândia é o lixo jogado em locais não apropriados. Isso nos causa problemas, como proliferação de mosquitos, de roedores e até de animais peçonhentos.

Pergunta de internauta:

Caso o senhor seja convidado a permanecer na administração, o que vai fazer? E sobre o Sol Nascente e Pôr do Sol, apoia algum nome para ser administrador? – A nossa intenção é retornar para a Câmara. Até porque, há um clamor do nosso eleitorado para que a gente volte a tocar nossos projetos como deputado para todo o DF. Sobre o Sol Nascente, temos alguns nomes, que já apresentei ao governador.

Quem são esses nomes? – Meu chefe de gabinete, Cláudio Domingos, por exemplo, é um deles, e o Antonio José, que é ligado à educação. São pessoas parceiros e conhecedores das demandas da região.

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