A “revolução” da mentira

Desde 1º de abril de 1964 (por mera coincidência, rotulado tradicionalmente como o Dia da Mentira), que a maioria da mídia nacional insistia em caracterizar como “Revolução”, para justificar a derrubada na noite anterior do presidente da República, Jango Goulart, por um grupo de generais que se apossaram do poder, impondo uma ditadura que vigoraria durante “21 anos de chumbo”, deixando em seu rastro cassações, torturas e mortes.

E só agora, 50 anos depois, a verdade está vindo à tona, graças à abertura de documentos secretos, até então guardados no cofre de segredos do governo norteamericano. Os fatos reais confirmam o que já escrevi (inclusive aqui neste cantinho de página), sempre desmentindo que não se tratava de “revolução” e sim de “golpe militar”, testemunhado de perto por repórteres da minha geração.

De repente, revistas e jornais, com base nesses subsídios históricos, começam a divulgar quem tramou e financiou os coadjuvantes fardados para consumar o que transformaria o Brasil num tipo de marionete, manipulada por estrangeiros. Como já se pode dar nomes aos bois, ei-los aqui devidamente identificados: embaixador Lincoln Gordon e general Vernon Walters, adido militar da Embaixada dos Estados Unidos, sediada no Rio de Janeiro, à época capital federal.

A primeira reportagem (por sinal, completa) foi publicada há um mês pela revista Superinteressante, na qual, entre outras, constam duas informações essenciais: Castelo Branco, que seria o primeiro dos cinco generais-ditadores, recebeu 1 milhão de dólares para financiar a conspiração; e navios de guerra americanos aguardavam no mar, a alguns quilômetros de Copacabana, prontos para entrar em ação, com seus fuzileiros navais, caso o Golpe fracassasse.

Por sua vez, o Correio Braziliense  vem publicando a série “A Sombra dos Quepes”, reprisando o que a Superinteressante  já divulgouPara não ficar atrás, a Veja,  em sua última edição, insere em 23 páginas a trama interna dos golpistas. E até cita o meu nome, no furo que fiz pela revista Manchete, como testemunha do Golpe consumado na Academia Militar de Agulhas Negras, quando os generais Kruel e Médici atraíram o então ministro da Guerra, general Âncora, a quem confirmaram a derrubada do regime democrático.

Estranhamente, a Veja omite os mandantes do Golpe, que agora a mídia não pode mais caracterizar como Revolução.

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