A opção é lutar

Configura-se, neste momento, uma possibilidade real de promovermos mudanças profundas em nossas vidas, ações e, enfim, em tudo o que nos orienta. Só temos a ganhar – nós e as próximas gerações – se conseguirmos criar um novo mundo.

Vivemos um tempo de questionamentos e de grandes dúvidas. Não que não as tivéssemos no passado. Sempre temos dúvidas sobre fazer ou não alguma coisa, sobre que posição tomar diante de determinado assunto ou definir uma atitude no momento.

Nesta crise em que estamos imersos, as dúvidas são tantas que nos paralisam. A pandemia preocupa-nos por nossa saúde e futuro. De agora em diante, como será a sociedade em que vivemos, dividida em classes sociais e profundamente polarizada?

O conteúdo dos veículos de comunicação nos apavora. São mortes em massa por covid-19, hospitais à beira do colapso, cheios de doentes contaminados pelo novo coronavírus, falta de leitos para atendê-los, cemitérios abarrotados, cidades sem infraestrutura.

Tudo é novo, pois o vírus é diferente e não se conhecem remédios ou vacinas para contê-lo. Pouco se sabe sobre a doença e estudos estão apenas no início. Não há perspectiva de soluções de curto prazo. 

Tudo o que podemos fazer é nos isolarmos, praticar uma boa higiene e usar máscaras para não sermos contaminados. Nosso dia a dia está repleto de restrições. Não dá, por exemplo, para protestar nas ruas, como antes, contra governos e autoridades que negligenciam a saúde da população e a vida dos trabalhadores.

O distanciamento entre as pessoas é a melhor forma de nos protegermos e de não espalharmos a doença. O problema é que os governos e patrões não ficaram parados. Ao contrário: estão em plena atividade, criando leis que congelam salários, retiram direitos e avalizam demissões em massa.

O momento não é favorável ao povo simples, que tem de encarar a pandemia em moradias inadequadas e enfrenta dificuldades de praticar o isolamento social, a carestia e o desemprego.

Se os impostos arrecadados tivessem sido aplicados na infraestrutura das cidades, na construção de moradias, em bons sistemas de saúde e de educação, talvez o isolamento social fosse mais fácil de ser aplicado e o País não registrasse tantas mortes.

Mas a realidade é outra: cortiços e favelas sem esgotos, sem água potável, sem luz, sem nada. Reflexos da injustiça social secular. O que temos são trabalhadores desempregados ou em atividades informais e precarizadas, sem dinheiro e sem futuro.

A fome ronda a periferia das grandes cidades, inchadas pelo êxodo rural. A população é abandonada e entregue à própria sorte.

Enquanto isso, o País assiste à subtração de conquistas inseridas na Constituição de 1988 e à degradação da qualidade de vida da população, do meio ambiente e do patrimônio histórico e cultural.

​Nuvens sombrias se formam sobre nossa jovem democracia e as liberdades individuais e coletivas, traçando um novo cenário de barbárie, já vivido por nós em tempo não muito distante. Por isso, não podemos ficar parados, inertes, assistindo ao aniquilamento de nossas vidas, de nossas famílias e nossos sonhos.

Definitivamente, desistir não é a opção. E muito menos concordar que voltaremos ao que era antes, quando acabar a pandemia. É hora de levantar a cabeça, olhar para frente e dizer: Vamos à luta! 

Vamos vencer o coronavírus, a fome, a miséria, as injustiças, as desigualdades, o autoritarismo, o fascismo e tudo o que constitui obstáculo à nossa felicidade. Apostar numa nova sociedade – justa, solidária, fraterna e com direitos assegurados.

Nossa História está repleta de embates pela liberdade e pela emancipação do povo. O próprio Hino diz que “um filho teu não foge à luta”. É disso que precisamos agora para que, como profetizou o compositor, esta terra ainda venha a cumprir seu ideal. Ideal de civilidade, de liberdades e de justiça social. Não o do arbítrio, da brutalidade e da opressão!

Estamos aprendendo com a pandemia, com a crise que nos abate. Vamos buscar um novo amanhã, fundamentado na Vida, que é e sempre será bem mais importante do que o lucro.

(*) Professor de História aposentado da rede pública de ensino do Distrito Federal

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