A falta que faz Aparecido

Já se passaram dez anos desde o falecimento de José Aparecido de Oliveira, primeiro governador do Distrito Federal após mais de duas décadas de ditadura militar. Nomeado em maio de 1985, logo em seguida a uma interinidade de 30 dias de Ronaldo Costa Couto, Aparecido é referencial da transição entre a Brasília que se consolidava e a Brasília que já devia se preocupar em preservar seus espaços, sua proposta urbana e seu meio-ambiente.

Acompanhado de Oscar Niemeyer, Aparecido supervisiona reforma da Catedral. Foto: Arquivo Pessoal de Silvestre Gorgulho.

Como poucos governantes, soube vislumbrar que se não houvesse mudança de rumos, a Capital Federal, projetada por Lúcio Costa, logo iria perder seus diferenciais e tornar-se uma metrópole como qualquer outra. O momento era de abertura política e de transição de governadores biônicos para eleitos. Guy de Almeida, então chefe da Casa Civil – que na época tinha funções de vice-governador –, relembra que Lúcio Costa, em entrevista ao Jornal do Brasil, defendia governador escolhido pelo governo federal.

O governador é eleito. Aí é aquela enxurrada de interesseiros que, depois de eleitos, começam a facilitar a vida dos amigos.

Para proteger Brasília dos interesses politiqueiros, Aparecido idealizou o tombamento, relata Guy, no livro, José Aparecido de Oliveira – O Melhor Mineiro do Mundo, organizado pelo jornalista Petrônio Souza Gonçalves e com lançamento marcado para 20 de março.

“Enquanto a tese da autonomia política ganhava fôlego, (Aparecido) buscava (via tombamento da Unesco) assegurar não apenas no plano nacional, mas também no mais alto nível institucional internacional, a preservação do projeto do Plano Piloto, liberando-o de riscos derivados da autonomia política. Buscava principalmente a prevenção internacional contra eventuais tentativas de alterações no projeto urbano e arquitetônico original da capital”.
O tombamento é feito histórico. Nunca uma cidade fora tombada pela Unesco no mesmo século de sua criação. Assim ele agiu e conseguiu frear a especulação imobiliária, afoita por explorar cada centímetro quadrado do Plano Piloto.

No governo dele o brasiliense passou a ter acesso livre ao Lago Paranoá. Aparecido determinou o resgate de um corredor de 13 Km à beira do lago – até então privatizados por moradores das mansões -, para a primeira ciclovia da Capital. Áreas de lazer foram construídas nas imediações da Ponte do Bragheto. Foi além: decidiu enfrentar a grilagem que, na ocasião, já parcelava largas áreas nas proximidades do atual Jardim Botânico.

Engana-se quem diz que a ocupação irregular do solo é um fenômeno pós-autonomia do DF. Foi nos
governos dos generais que surgiram os primeiros condomínios irregulares. Muita gente de farda e com alta patente se beneficiou. Para a região, com apoio do Banco Mundial, Aparecido encomendou o projeto do Lago São Bartolomeu, que se não tivesse sido sabotado, hoje não sofreríamos com a crise hídrica.

Cultura

Como bem registra Guy, o jornalista e político José Aparecido, inoculou “na biologia de Brasília o germe dourado da cultura”. Mostrou aos brasilienses que o desenvolvimento e a consolidação econômica da Capital não dependiam de “chaminés”. Como grandes capitais mundiais, tais como Paris e Washington, a Cultura, e suas consequências no turismo, educação e pesquisa, dentre outros, poderia ser o motor sustentável da economia local.

Desta forma, surgiram o Panteão da Democracia, a Casa do Cantador, o Memorial dos Povos Indígenas, a Pira do Fogo Simbólico da Pátria, o Museu da Arte Moderna, a reforma da Catedral, o Espaço Cultural Niemeyer e o Relógio do Sol, no Parque da Cidade, dentre outros. É nesse espirito que se encaixa o Memorial da Liberdade e Democracia, projetado por Oscar Niemeyer para o Eixo Monumental, mas recentemente vetado por Rodrigo Rollemberg.

Brasília Revisitada

O governador Aparecido teve a percepção de defender a preservação do Plano Piloto e, ao mesmo tempo, projetar o futuro urbanístico da Capital. Para tanto, convidou o pai da ideia. No Revisitando Brasília, Lúcio Costa apontou as áreas que poderiam ser alvo de expansão urbana e definiu gabaritos.

Assim nasceram o Sudoeste e o Noroeste. Foram previstas áreas habitacionais às margens da EPIA, nas imediações do Paranoá e no Lago Sul. Algumas dessas áreas foram imediatamente alvos da grilagem e da ocupação desordenada. E assim permanecem até hoje.

As ideias de Aparecido, relata Guy, provocaram as forças oposicionistas. Em setembro de 1988, foi substituído por Joaquim Roriz, e o que aconteceu no DF não carece de detalhamento. As consequências são visíveis.

Passados 23 anos desde que terminaram os 40 meses de José Aparecido de Oliveira à frente do GDF, os principais debates da atualidade, como a preservação do Plano Piloto, o combate à expansão urbana desordenada, a defesa da proteção ambiental e a integração do homem à sua cidade ainda são desafios não resolvidos.

Página 11 do Jornal Brasília Capital