A Eva da Ilha do Sol

Sem a intenção de esnobar quem quer que seja, posso me gabar de que fui um dos felizardos por ter morado na então paradisíaca ilha de Paquetá, por volta dos meados da década de 1970, quando a Baía de Guanabara não era ainda poluída e de noite a gente podia caçar enormes siris com lanterna e puçá na beira da praia de água transparente. E todo esse conforto somado à paz que desfrutávamos, juntamente com cerca de três mil moradores, podendo dormir numa boa em nossas casas com portas e janelas abertas (não havia prédios), à exceção dos domingos e feriados, com a chegada dos inconvenientes visitantes “farofeiros”, que interrompiam a nossa felicidade.

Para completar a minha alegria, na certa em função do sucesso da publicação de meu primeiro livro, Os 7 Pecados da Juventude Sem Amor, pela Editora Vozes, recebi uma excelente proposta para escrever a biografia de uma vedete chamada Luz del Fuego, famosa porque escandalizava as pudicas senhoras da alta sociedade, se apresentando nua num palco de teatro carioca, envolta por duas cobras jibóiasPor mera coincidência, ela comprara uma ilhota quase defronte a Paquetá, que batizou de Ilha do Sol, onde instalou uma colônia de nudismo que chegou a ganhar fama internacional, atraindo até mesmo saudosos astros e estrelas de Holywood, como Errol Flynn, Brigitte Bardot, Lana Turner e Ava Gardner.

Vibrei com a expectativa de documentar a estória de Luz del Fuego,, não tanto pelo ganho de dinheiro (ambição que, aliás, nunca tive), e sim pelo conteúdo do perfil de uma feminista de forte personalidade. Nascida em berço de ouro, ela na verdade usava um significativo pseudônimo para esconder o sobrenome de tradicional família capixaba. Pouca gente sabia que seu nome de batismo era Dora Vivacqua. E, à época, tinha um irmão senador, conhecido por seu caráter e atuação política: Atílio Vivacqua, que merecidamente emprestou seu nome a um município do Espírito Santo.

Descendência nobre à parte, ficou acertado que eu passaria um domingo inteiro de 1967 na Ilha do Sol, entrevistando a biografada. Infelizmente, esse encontro não se realizou porque, na véspera, sábado à noite, um assaltante a matou. Luz Del Fuego perdeu a vida aos 50 anos de idade. E eu, a oportunidade de escrever uma rica biografia.

Fonte:

Deixe um comentário