A desafinada do rapper

O rapper Alisson Fernando Brito, de 36 anos, conhecido pelo apelido de TRA Strong, foi detido sob a acusação de fazer música com apologia e incitação ao crime. Foto: Lorrane Oliveira

O sistema carcerário brasileiro é conhecido como “universidade do crime”. Pessoas detidas por cometerem pequenos delitos, ao serem presas, “formam-se” ou são “adotadas” por facções que comandam o crime organizado.

Essa realidade é reconhecida pelos Poderes Executivo, Legislativo e, especialmente, o Judiciário. Muitos juízes chegam a relutar em sentenciar autores de delitos menores a pena em regime fechado para não “entregá-los” às facções.

Em Brasília, ganhou destaque nos últimos meses, na imprensa, a prisão do rapper Alisson Fernando Brito, de 36 anos. Conhecido pelo apelido de TRA Strong, ele foi detido sob a acusação de fazer música com apologia e incitação ao crime.

Ainda jovem, ele foi condenado e cumpriu 2 anos no presídio. “Uma experiência pela qual não quero mais passar”, diz. Ao sair da prisão, procurou emprego na área de saúde, na qual tem formação como técnico em radiologia.

Demissões – Por 10 anos trabalhou no Instituto de Cardiologia de Brasília e no Hospital de Base. Recentemente, estava bem classificado numa seleção do Hospital Sírio-Libanês. Mas, a gravação de um rap de sua autoria, que viralizou na Internet, virou seu mundo de pernas para o ar.

TRA Strong conta no rap parte das experiências que viveu na prisão e narra a violência que, segundo a música, ocorre dentro do sistema carcerário. “Passei a receber ameaças, até de morte”, diz ele, que acabou demitido dos dois empregos e desclassificado da seleção do Sírio-Libanês.

Assustado, contratou o advogado criminalista Jadson Reis, que ingressou, semana passada, com uma representação no Núcleo de Controle e Fiscalização do Sistema Prisional (Nupri) do Ministério Público do DF e Territórios contra agentes penitenciários por perseguição e ameaças.

Coação – O advogado diz que a representação ainda denuncia os agentes por coação que o cantor tem recebido pelas redes sociais, pelo canal no YouTube e por telefone. Reis alega que os agentes penitenciários cometeram outros crimes, como o de tirar uma foto de seu cliente em frente a uma delegacia e divulgá-la, ilegalmente, para a imprensa local, “que veiculou informações difamatórias sobre o cantor”.

“A ilegalidade é porque os presos têm o direito de ter sua imagem resguardada e mantida em sigilo no arquivo da polícia”, explica o advogado. “Alisson corre risco de ser assassinado por causa da música que retrata a relação perversa entre agentes penitenciários e presos”, insiste.

A cachorra vai tocar

O drama do cantor começou com o processo aberto por agentes penitenciários, em fevereiro de 2019, por causa do rap “A cachorra vai tocar”, lançado em janeiro. Como no filme “Tropa de Elite”, a música relata as relações entre agentes e presos.

Sentindo-se ofendidos, os agentes penitenciários transformaram Brito em réu e ele foi condenado pelo juiz Pedro de Araújo Yung-Tay Neto a 7 meses de uma pena restritiva de direitos (Inquérito 2019.01.1.002402-4). Irá responder em liberdade, porém, com restrição de direitos a serem definidos pela Vara de Execuções das Penas e Medidas Alternativas (Vepema).

O processo movido pelos agentes penitenciários dá conta de que a letra da música é apologia e uma incitação ao crime. “É apenas uma música. Além de tentar me incriminar, o que estão praticando é censura”, defende-se Alisson.

DESEMPREGO – “Estou desempregado e não tenho como procurar emprego na minha área porque esse processo é tudo que se comenta no meio profissional. Muita gente não sabe do que aconteceu de verdade e me julga e nem fala mais comigo”, lamenta.

O advogado acredita que o juiz que condenou o músico “foi parcial e modificou a letra da música”. “Na condenação, o juiz inventou trechos que não existem na letra original para fundamentar sua argumentação e condenar, de forma injusta, o músico”, denuncia Jadson Reis.

O caso de Alisson reforça outro estereótipo do direito criminal: Uma vez bandido, sempre bandido. Ele carrega a marca da prisão. Pagou pelo crime anterior. Estava ressocializado, exercendo sua profissão.

Mas TRA Strong cometeu o deslize de, com sua arte, “cutucar o sistema com vara curta”, como ele mesmo diz. E assim o Brasil pode estar condenando mais um a não escapar do crime, mesmo disposto a se recuperar.

ATLAS – A violência policial tem elevado os índices de criminalidade contra homens jovens, negros e pobres, como aponta o Atlas da Violência 2019, divulgado pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O levantamento mostra que de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. De acordo com o Mapa, os negros têm chances 23,5% maiores de serem assassinados em relação a brasileiros de outras raças, já descontado o efeito da idade, escolaridade, do sexo, estado civil e bairro de residência.

Saiba+ – “A cachorra vai tocar” é uma alusão à sirene que toca dentro dos presídios quando há rebelião ou qualquer tipo de tumulto. E é esse o título da música do rapper TRA Strong.

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