A culpa é do Hemingway

Como vou discorrer sobre um trecho da trajetória de minha vida, convém lembrar antecedentes: meu pai era médico, do tipo que acompanha seus pacientes em todos os momentos, independentemente de compensações financeiras,  porque nunca deu muita importância às coisas materiais. Tudo leva a crer que eu teria seguido a Medicina, se ele não tivesse falecido tão cedo. Mas não sei se estaria feliz, tanto quanto hoje, há 60 anos permanecendo na mesma profissão de escriba (*), mesmo tendo a oportunidade de optar por outras mais rentáveis. Como sonhava rabiscar livros numa mesa de bar do Quartier Latin, em Paris, e trabalhar como repórter, igualzinho ao meu ídolo Ernest Hemingway, não tive qualquer dúvida em declarar meu amor ao Jornalismo e, em menor fidelidade, à Literatura.

Muito embora também tenha me tornado repórter e escritor, sem falsa modéstia não há nada entre os meus trabalhos escritos se comparados ao precioso acervo que nos deixou Hemingway. Como escritor, desde seu primeiro romance O Sol Também se Levanta (1926), seguido de outros best-sellers, com destaque para O Velho e o Mar, que lhe proporcionou o Prêmio Nobel de Literatura de 1954. Por sinal, escreveu esta obra-prima com a intenção de calar a boca (e conseguiu) de alguns críticos invejosos que alegavam que seus livros anteriores não eram romances e sim grandes reportagens. A propósito, grandes reportagens ele produziu quando atuou como correspondente de guerra.

No que se refere ao meu caso, apesar de 11 livros publicados (e esgotados), já teria morrido de fome se dependesse dos direitos autorais dos mesmos para sobreviver.  Em compensação, como jornalista sou um cara muito rico: percorri os quatro cantos do mundo, vi muitas coisas feias, mas também inúmeras bonitas que só se vê com os olhos do coração. Conheço o Brasil de ponta a ponta e tenho amigos em todos os lugares. Como acréscimo, me considero um felizardo com o meu patrimônio familiar: uma mulher-companheira, 7 filhos, 12 netos. E sinto que eles me amam!

O que posso querer mais do que isso?

 

(*) Aos jovens, deixo aqui uma dica: quando escolher sua profissão, não opte pela mais fácil em ganhar dinheiro e sim por aquela que conferir com a sua vocação. No primeiro caso, em pouco tempo, você ficará neurótico e gastará todo o seu dinheirinho com o psiquiatra.

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