A Atlântida brasiliense

Parodiando Pascal, me arrisco a dizer que Brasília tem tantas belezas ocultas que nem mesmo os brasilienses pioneiros conhecem ou ouviram falar. A reboque, convém lembrar que o nosso Lago Paranoá possui verdadeiros tesouros que não podem ser vistos a olho nu, tal qual a perspectiva do escritor francês Antoine de Saint-Exupèry, autor da obra-prima O Pequeno Príncipe: “A beleza do deserto é que existe um poço em algum lugar”.

 Quem conhece de cor e salteado a história do lago é o acreano Edmilson Figueiredo, 55, proprietário e comandante do barco “Brasília”:

– Pouca gente sabe, mas sob as águas tranquilas do Paranoá há uma cidade submersa, que é a Atlântida brasiliense. Antes de ser alagada, por volta de 1958, ela se chamava Vila Amauri, principal agrupamento de trabalhadores candangos e que chegou a ter cerca de 25 mil moradores. Mas precisou desaparecer, para proporcionar melhor qualidade de vida à então futura população da Capital do Brasil, atenuando a secura do ar.

Edmilson chegou à cidade em 1975. Mas, como todos nós, forasteiros que amam Brasília, se consideram brasiliense da gema, por livre opção. E com fé no futuro, investiu tudo que tinha num projeto de turístico náutico, isto há quase seis anos. Partindo três vezes por semana do cais do Bay Park Hotel, no Lago Norte, o “Brasília” percorre os 112 quilômetros da orla lacustre, cobrindo o percurso em três horas e meia, enquanto são exibidos vídeos e slides numa enorme tela, ao mesmo tempo em que o comandante narra ao microfone quando, como e porque nasceu o Paranoá.

Nas noites de lua cheia, há uma pequena mudança na programação. É a vez da “Barca Poética”: um verdadeiro sarau de poesias, com autores de todas as idades, inéditos ou não, recitando seus versos ao vivo.

É o único momento em que Edmilson se desfaz do boné de almirante e entra, humildemente, na fila dos declamadores. Afinal, ele também é poeta e escritor. E ama uma cidade em formato de avião, que tem um céu que pode ser contemplado por um ângulo total de 360 graus, aliás, o mais bonito do mundo.

Por Fernando Pinto* 

Jornalista e escritor.

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