2018 vai ser um ano do Cão

Não, não é nenhum trocadilho, embora 2018 prometa ser um ano bem complexo no Brasil e em Brasília. Segundo o Horóscopo Chinês, 2018 fecha o ciclo do Galo e abre o ciclo do ano do Cão, que começa em 16 de fevereiro e vai até 5 de fevereiro de 2019, sob a influência direta do elemento Terra. Uma interpretação barata pode, contudo, induzir o leitor a achar que estamos muito mais perto daquilo que a cultura popular brasileira define como sendo “do Cão”.

Pelo olhar oriental, sob a influência do signo do Cão da Terra, há a valorização da solidariedade, do diálogo e da igualdade. As pessoas serão mais tolerantes e terão mais empatia, tornando o ano repleto de equilíbrio. Talvez lá pelas bandas do Oriente. Por aqui, tudo indica os ânimos estarão mais esquentados do que nunca.

Chupando manga – A situação política e econômica do Brasil e da Capital Federal nos leva a crer que a leitura endiabrada, atribuída pela cultura popular, mostra-se muito mais apropriada. Poder-se-ia, mesmo, dizer que vai ser um ano do “Cão chupando manga”.

Crise hídrica, desemprego, salários baixos, gás e gasolina com preços pela hora da morte, eleições, diferenças religiosas, lutas sociais …, tudo contribuindo para acirrar os ânimos.

Aquele brasileiro cordial, gentil, revelado por Sérgio Buarque de Holanda, em 1936, na obra Raízes do Brasil, parece ter desaparecido nas redes sociais da pós-modernidade. Mas, como visionário, ele mesmo deu a pista da transformação ao definir que a ética do brasileiro tem um fundo emotivo e que, com a simples cordialidade, não se criam bons princípios.

Fake News – Os nervos estão à flor da pele, e certamente em decorrência de um fundo emotivo, como citado por Holanda. Existe uma insatisfação política social latente e que se revela em mensagens fortes, sejam nas redes sociais virtuais ou tradicionais – as famosas rodas de conversas.

Nem mesmo no período de festas, quando a harmonia deveria reinar entre todos, deu trégua. Não faltam mensagens politicamente incorretas: intolerância política, religiosa, de gênero, racista, xenófoba, de discriminação regional e social.

Para reforçar tudo isso, surgem agora as informações de que programas cibernéticos, robôs e até equipe de profissionais são utilizados para fomentar as fake news, os boatos que irritam tanta gente.

Barriga vazia

Essa conjuntura nacional e local não deve mudar. Desemprego, proliferação de casos de corrupção, carestia – embora as cifras oficiais insistam em dizer que a inflação está caindo -, tudo tende a contribuir para que 2018 seja um Ano do Cão à Brasileira.

Os economistas mais otimistas falam na geração de 500 mil empregos. Significa dizer que continuaremos com 11,5 milhões desempregados. Contabilizados seus familiares, serão cerca de 50 milhões de pessoas de barriga vazia.

Crise hídrica – Aqui em Brasília, onde o desemprego beira 300 mil pessoas. Um desempenho da economia igual ao de 2017 gerará apenas 12.500 novas vagas. Ou seja, pouca coisa mudará. Tem ainda o agravante da crise hídrica. O metrô não terá sido ampliado, e a Saúde e a Educação continuarão precárias.

Apesar da ajuda de São Pedro neste início de ano, 2018 será ainda de racionamento d’água, afetando, principalmente, as camadas mais pobres, que não possuem reservatórios capazes de atravessar três dias de turbulência no abastecimento toda semana.

Custo de vida, Copa e eleições

O título de cidade campeã do custo de vida também não ajudará a apaziguar os ânimos. Quem sabe a Copa do Mundo!… Mas logo depois começará o período eleitoral e os zap estarão zunindo de tudo que é lado.

A política local e a nacional tendem a apimentar o ambiente. Nesse primeiro semestre devem sair resultados de vários processos judiciais. Os principais atores políticos que buscam as cadeiras do Buriti e do Planalto estão pendurados na Justiça. Punidos ou absolvidos, não importa, o circo vai pegar fogo. Dirão uns que é marmelada, outros que é golpe.

Na Câmara Legislativa, é grande a nominata de distritais enrolados judicialmente. E é lá que estão complexos projetos de leis, como a Lei do Silêncio, a Lei de Uso e Ocupação do Solo, o Zoneamento Ecológico e Econômico.

As autoridades falharam em construir um consenso e a comunidade de Brasília está pronta a impedir que os políticos alterem as regras em favor da especulação imobiliária, sempre muito poderosa.

Como se vê, 2018 será mesmo o Ano do Cão. Mas do Cão cibernético, tuitando e zapiando.

Haja espírito de tolerância e, é claro, memória no celular…

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