​Por que Bolsonaro “pegou leve” na manifestação de domingo?

O presidente Jair Bolsonaro fala à imprensa da rampa do Palácio do Planalto e cumprimenta apoiadores. Foto: Marcello Casal Jr./ Agência Brasil

​Jair Bolsonaro não foi Jair Bolsonaro no fim de semana. No sábado, o presidente da República recuou da ideia de fazer um pronunciamento à Nação para defender o fim do isolamento social e o uso da hidroxicloroquina no combate à covid-19. Ele sabia que seria alvo, provavelmente, do maior “panelaço” em todo o País, após o afastamento do segundo ministro da Saúde em menos de um mês no curso da pandemia que já levou a vida de mais de 16 mil brasileiros e contaminou quase 300 mil.

​Em rápida aparição no sábado, marcou um “encontro” para o dia seguinte, às 11h, na rampa do Palácio do Planalto. De fato, o Presidente compareceu na hora marcada. Acompanhado de filhos e de 11 ministros, evitou ataques às instituições e ainda fez questão de dizer que não havia, ali, faixas defendendo o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF). Havia. Mas, por determinação do próprio Bolsonaro, foram retiradas momentos antes de sua aparição.

​E por que Bolsonaro se cercou de tais cuidados? Pelo menos dois motivos podem ser destacados: 1) O presidente está em pleno processo de reaproximação com o Centrão, grupo de deputados e senadores fisiológicos do Congresso que emprestam apoio ao governo de plantão em troca de cargos no governo; e 2) Estava avisado da publicação de uma entrevista do empresário Paulo Marinho à Folha de S.Paulo dando conta de que seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, foi avisado previamente, por um delegado da Polícia Federal, da Operação Furna da Onça.

Queiroz – A investigação estava em curso em 2018 e foi deflagrada entre o primeiro e o segundo turnos da eleição presidencial. A Operação Furna da Onça expôs detalhes das movimentações financeiras sobre Fabrício Queiroz, então assessor de Flávio. Queiroz é acusado de operar um esquema de “rachadinha” no gabinete do 01 na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), conforme afirmação é de Paulo Marinho, figura central na campanha de Bolsonaro à Presidência e suplente do senador.

Flávio divulgou nota afirmando que a declaração do ex-aliado é “invenção de alguém desesperado e sem votos” e que tem interesse em prejudica-lo porque herdaria seu mandato de senador. O procurador-geral da República, Augusto Aras, afirmou, ainda no domingo, que vai analisar a denúncia do empresário de que o senador foi avisado com antecedência sobre a operação. Paulo Marinho revelou, ainda, que policiais federais simpatizantes da candidatura de Bolsonaro teriam retardado a operação, para que ela ocorresse após o segundo turno. O delegado teria sugerido que Flávio tomasse “providências” antes da operação.

Transtornado – De acordo com Marinho, pré-candidato do PSDB à Prefeitura do Rio, as revelações foram feitas a ele pelo próprio Flávio, em 13 de dezembro de 2018, quando a Furna da Onça já havia sido realizada. A ação foi deflagrada em novembro de 2018. Embora não tivesse Queiroz entre os alvos, a operação do Ministério Público Federal (MPF) expôs a movimentação financeira atípica dele, uma vez que ela constava entre os documentos recebidos por procuradores ao longo da apuração e que envolvia assessores de vários deputados.

A investigação sobre o ex-funcionário de Flávio, no entanto, foi aberta no âmbito estadual, pelo Ministério Público do estado, que também havia recebido os Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). 

O filho de Bolsonaro havia procurado o empresário porque queria uma indicação de advogado criminalista, uma vez que as investigações o implicavam. Teriam participado do encontro, na casa de Marinho, e são testemunhas da conversa, segundo o empresário, o advogado Victor Alves, da confiança de Flávio, e o advogado Christiano Fragoso, indicado à defesa do senador na ocasião. “Ele (Flávio) estava absolutamente transtornado”, disse Marinho. “Dizia que tudo aquilo tinha sido uma grande traição, que se sentia muito decepcionado e preocupado com o que esse episódio poderia causar ao governo do pai.

Demissões – Na ocasião, o senador relatou que um assessor de confiança, o ex-coronel Miguel Braga (hoje seu chefe de gabinete no Senado), recebeu, logo após o primeiro turno, uma ligação de um delegado da PF do Rio que dizia ter uma informação de interesse de Flávio. Este, consultado, mandou Braga encontrá-lo. A reunião teria ocorrido na porta da Superintendência da PF na Praça Mauá, zona portuária do Rio, na presença do advogado Victor Alves e de outra pessoa da confiança do senador, Val Meliga.

De acordo com o relato de Marinho, Jair Bolsonaro foi informado da conversa e pediu para o filho demitir Queiroz do gabinete no mesmo dia (15 de outubro de 2018). A filha mais velha do PM, Nathalia, foi demitida do gabinete de Bolsonaro na mesma data, entre os dois turnos da eleição e antes de a operação ser deflagrada.

Flávio disse a Marinho que não fazia mais contato com Queiroz, nem o atendia, para não ser acusado de estar orientando o ex-assessor. Mas revelou que o advogado Victor Alves continuava em contato com o ex-PM. Indicado por Marinho para auxiliar Flávio em sua defesa, o advogado Christiano Fragoso recomendou que se arranjasse um advogado para Queiroz e indicou Ralph Hage Vianna, disse o empresário na entrevista.

A informação de que um delegado da PF informou Flávio Bolsonaro em outubro da operação que seria desencadeada foi publicada em dezembro pelo colunista AscânioSeleme, d’O Globo, tal como relatada agora, com mais detalhes, na entrevista de Paulo Marinho à “Folha”.

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