Um grito de Amor, perdido na Selva

A gente já tinha andado seis dias dentro da selva, atravessando charcos traiçoeiros por causa dos Puraquês (peixes elétricos) e muitas vezes bancando o equilibrista sobre pinguelas improvisadas, num avanço doloroso a cada quilômetro conquistado, vencendo aquele emaranhado de cipós, espinhos e pontas de galhos, que chicoteavam as minhas indefesas costas, na certa com gestos evidentes de protestos mímicos pela nossa invasão ao meio ambiente ainda virgem. Nosso pobre safári era composto apenas por três pessoas: o guia indigenista da Funai, o fotógrafo e o repórter (eu), tentando localizar a maloca dos Parakanãs, os índios-gigantes da Amazônia.

Era como se fosse um filme made in Hollywood, mas não havia nada de ficção: a selva era de verdade, havia onças de verdade, as cobras também eram de verdade. E se existia o tal de Inferno, ali estava a cópia do Inferno de verdade. Só parávamos de andar (e escorregar) quando escurecia. Felizmente, na selva a claridade do dia cede lugar bem cedo à escuridão da noite. Mas quando chegava essa abençoada hora, já estávamos mais mortos do que vivos, sem ânimo sequer para pendurar nossas redes nos galhos mais altos de uma árvore frondosa, com uma providencial fogueira embaixo, cautela para que não virássemos jantar de onça faminta.

Nossa viagem tinha sido programada para três dias e já estávamos há seis chupando rapadura para dormir, já que a nossa reserva de conservas havia acabado. Sem conseguir conciliar o sono, envolvido por uma escuridão compacta e inconveniente, eu batia os queixos sem saber se era por causa do frio úmido ou por puro cagaço. No auge da insônia, lá pela madrugada, de repente ela apareceu, iluminando tudo com sua imagem revestida de luz:

– Alô, menino, não tenha medo porque estou aqui!…

– Quem está com medo, logo eu?

Ela deu a entender que tinha acreditado na minha mentira, enquanto acariciava a minha cabeça. Disfarcei, fiz uma boa checagem com os olhos semicerrados e apurei o ouvido. Aí quase despenquei da rede de tanta emoção: a voz era a dela, os cabelos de ouro também, enfeitados por dois olhos azuis-anil e aquela boca maravilhosa, conjunto de beleza que só poderia ter uma única proprietária. Aí pulei no seu pescoço de marfim, a envolvi num abraço eterno e dei um grito de Tarzan que acordou todos os bichos da selva:

– Jane Fonda, meu Amor!

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