Simplesmente Chance

Que mistérios envolvem a condição humana? Em que consiste o viver? Se fosse possível crescer sem contato com o mundo tal como o conhecemos, que tipo de pessoas seríamos?

O filme “Muito Além do Jardim” (Being There, EUA, 1979), de Hal Ashby, traz alguém assim: o protagonista Chance, vivido por Peter Sellers. Baseada no livro O Videota (1971), de Jerzy Kosinski, a história gira em torno de um menino acolhido por um homem que vivia só. Percebendo nele alguma diferença, o presenteia com aparelhos de televisão.

Sem orientação nem convívio com outras pessoas, Chance, além do ofício de jardineiro, aprende apenas o que vê nas cenas apresentadas na TV. E assim chega à vida adulta. Quando seu tutor morre, a governanta vai embora e chegam os advogados para despejá-lo da casa.

Ao som de “Assim Falou Zaratustra”, de Richard Strauss, ele desce os degraus, olha a rua, escolhe uma calçada e nasce para um mundo novo, sob a mesma trilha utilizada por Stanley Kubrick em “2001: uma odisseia no espaço” (2001: a space odissey, 1968).

Vestido com as roupas de boa qualidade herdadas do falecido, caminha sem rumo. Acha que entende as pessoas que cruzam com ele, enquanto elas o olham como alguém muito estranho. É ingênuo, desconhece códigos de conduta, liga e desliga o controle remoto que carrega no bolso do paletó como se pudesse desligar a realidade, ou mudar de canal e contemplar outro cenário.

Ao parar distraído diante de uma TV ligada na vitrine de uma loja, Chance tem a perna prensada entre dois carros. O jardineiro é socorrido por uma mulher rica, Eve, que o leva para casa. Ela é casada com um milionário importante, Ben Rand. O contraste entre a ingenuidade do jardineiro e os meandros desse novo cenário se acentua ao descortinar mais um universo desconhecido para ele.

Chance é um jardineiro, mas por ter bons modos, calma e discrição, é percebido pela família que o acolhe como um sábio. Ele fala da única atividade que conhece, a jardinagem. Mas é confundido pelos interlocutores, que entendem esse discurso simples e literal como se fossem metáforas sofisticadas. Ele não tem noção disso.

Com um roteiro que intercala diálogos aparentemente sem sentido com silêncios cheios de significado, o filme mostra o contraste entre a leveza de espírito de Chance e a complexidade do sistema em que vivem Ben, Eve e o grupo de pessoas com as quais o casal se relaciona.

Com o convívio, Eve se apaixona pelo novo hóspede. Ben, muito doente, percebe e aceita esse vínculo afetivo, na certeza de que a mulher precisará de um bom companheiro quando ele morrer. Chance se adapta com facilidade àquela nova vida e se deixa levar pelos acontecimentos. Gosta de Eve e aceita a corte que ela lhe faz, sem, entretanto, compreender seu comportamento e seus desejos.

A antiga casa onde Chance vivia e a de Ben e Eve representam papel importante, pois são os mundos protegidos. Ali ele transita com desenvoltura, sente-se seguro, vive experiências inéditas, como, por exemplo, se deslocar por elevador.

O roteiro permite compreender as sutilezas do protagonista e as relações com os demais personagens. A luz, os sons ambientes, os olhares e silêncios são relevantes no contexto das cenas, como os sussurros dos amigos de Ben no funeral, enquanto carregam o caixão com o corpo do milionário. Apesar do momento de luto, eles conversam sobre os porvires da vida política do país.

Enquanto o sepultamento prossegue, Chance se afasta, ajeita as plantas ao longo do caminho, se aproxima do lago e anda sobre as águas com a alma leve e a pureza que nos fazem questionar: o que é importante na vida?