Quando a mentira não faz mal a ninguém

 

Não quero bancar o moralista, mas, por influência paterna, desde menino passei a considerar a mentira como uma erva daninha que provoca danos irreparáveis. Por tabela, nutria verdadeira antipatia por pessoas mentirosas, cujas, tal qual a fila dos puxa-sacos, cada vez aumentam mais. Mas na proporção em que os meus cabelos foram ficando grisalhos, graças a  reflexões, minha intolerância se transformou em indulgência.

Evoluindo, gradativamente, cheguei à conclusão de que a mentira tem duas faces: a que reboca maldades imperdoáveis; e a que não faz mal a ninguém. Aliás, esta última já foi diagnosticada como Mitomania. E quem mente nessa linha oral é classificado de mitômano, autor de mentirinhas contendo 10% de verdades, mas tão imaginosas que se transformam em prazerosas de se ouvir. Nessa faixa já cruzei com certos bons amigos, que são especialistas em multiplicar o tamanho de fatos realmente ocorridos.

Um desses, por exemplo, ciente de que eu gosto de fazer uma fezinha no jogo do bicho, disse que ganhou 320 mil reais na milhar da Loteria Federal. E que deu 32 mil reais de gorjeta ao cambista (personagem que trabalha para o patrão-banqueiro), que no Rio de Janeiro a gente chama de “redator zoológico”. Como também sou cliente do mesmo escrevinhador, procurei passar a limpo in loco. Na verdade, o sortudo acertara em uma milhar “na cabeça”, porém 10 vezes menos do que a quantia mencionada.

Outro grande amigo, de índole honesta comprovada, descendente de uma rica família de fazendeiros, garantiu que um de seus tios era dono de uma propriedade agrícola em Goiás, na qual trabalham cerca de 300 funcionários. Mesmo ciente de que ele tinha um titio big shot agrário, resolvi checar os números, recorrendo ao Mr. Google. Conclusão: a maior e mais moderna fazenda do mundo se localiza no Texas americano; e o total de trabalhadores não chega a 30, incluindo os vaqueiros.

Não sou dado a fazer prognósticos temerários, mas acredito que no Juízo Final os mitômanos terão acesso fácil ao Paraíso, caso não tenham cometido faltas graves. Em contrapartida, os políticos mentirosos, com certeza serão condenados ao Inferno, sem direito à apelação atenuante via Purgatório, simplesmente porque se elegem com a única intenção de roubar seus semelhantes, brasileiros, que são filhos de Deus!

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